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...REVISANDO CONCEITOS:

Quem são os “Índios Isolados”?
      A expressão “índios isolados”  tem origem na terminologia jurídica brasileira 
especificada a partir do Estatuto do Índio (Lei 6001/19-12-1973),   que define 
“graus de contato” como estágios crescentes de relacionamento  entre sociedades
 indígenas e sociedade nacional. A perspectiva de que o  “contato” é inevitável, 
seguido inevitavelmente pela “assimilação” da sociedade  indígena contatada 
demarca o entendimento do processo de contato numa visão  “evolutiva”,
 pretensamente integracionista.
       Povos adversos, hostis ou meramente temerosos diante do encontro com os  
“civilizadores” sempre houve, nas crônicas, na etnografia e na história.  
Denominados por inúmeras alcunhas (quase sempre, depreciativas), tais como
  “arredios”, “brabos”, “bugres”, tais populações de modo geral estabeleceram 
ou  sofreram tipos de “contato” diversos com elementos exógenos:
arco    
     
 

- Confrontos diretos com segmentos violentos  de origem externa: 
entre eles exploradores,  tropas militares, colonizadores e  afins.
  
 -Contatos indiretos, através do conhecimento  e notícia da grande 
devastação e mortandade  executada pelos invasores em áreas  
próximas aos seus territórios.    

-Contatos diretos ou eventuais com objetos manufaturados/industrializados 
introduzidos  pelos não-índios em regiões  limítrofes, que chegavam a 
populações em áreas remotas  por conta de trocas  intertribais .    

-Contatos primários ou secundários com  microorganismos patológicos
 carreados pelos  colonizadores por grandes extensões  geográficas.

   Neste sentido, não é  verdade, portanto, que os chamados “isolados” sejam povos
 que tenham se mantido   ao longo dos séculos “intocados” por todas as transformações
 e ocorrências  produzidas pelas sociedades envolventes, pois mesmo  negando-se ao 
convívio imediato ou alocando-se em posições geográficas  marginais,  sofreram 
inúmeras interferências da pressão invasora.  Por outro lado, excluindo-se o  
afastamento provocado  pela violência, toda sociedade humana a princípio se 
interessa pela aproximação do outro, por curiosidade,afinidade ou  necessidades,
 tanto econômicas quanto culturais. 

       A chegada do conquistador  europeu às Américas provocou intensos movimentos migratórios, 
após o impacto  inicial de destruição e genocídio em curso. Ainda assim, é necessário lembrar  que
 antes dos “descobrimentos” as sociedades autóctones, compostas por milhões  de habitantes em 
milhares de povos diversos, detinham o próprio curso e ritmo  de seus movimentos migratórios, 
guerras, alianças ou evitações, em constante  fluxo ou estabilizações pelo vasto continente.. 
	
	    A presença e difusão de um novo elemento agressor, com  tecnologia bélica mais avançada, provocou 
 intensos deslocamentos  e interiorização de povos dantes situados provavelmente próximos  à costa, 
ao curso de grandes rios ou às fontes de água permanente. Povos encontrados  pelos europeus na faixa
 litorânea do território recém-descoberto  fragmentaram-se e foram pressionados à migração para áreas 
mais remotas, na  tentativa de fuga de confrontos diretos ou iminentes. Povos diversos 
também já  se encontravam em áreas remotas por processos internos, anteriores a chegada  dos europeus.

     Mesmo diante da extinção total de milhares de nações nativas, alguns povos ou frações destes povos 
envidaram um processo contínuo de interiorização para áreas cada vez mais longínquas,  adaptando-se 
e sobrevivendo. 

       NOS DIAS DE HOJE...
      Este processo de devastação e  fuga permanente, incrivelmente, se perpetua até a atualidade. Em décadas 
 recentes, a abertura de grandes rodovias, (Transamazônica, Belém-Brasília,  Manaus-Boa Vista, entre outras), 
patrocinadas pelos governos militares em sua  visão estratégica de “integração” e de “segurança nacional”, 
sepultou dezenas  (ou centenas) de povos indígenas, repentinamente acossados pelas mazelas de  relacionamentos 
forçados, sobretudo pela proliferação de doenças infecto-contagiosas para as quais não haviam desenvolvido 
imunidade. 
     
	   Muitos  genocídios explícitos foram e são consumados por interesses econômicos locais,  como o
 “Massacre do Paralelo 11” (extermínio de grupos Cinta-Larga, MT), o “Massacre do Igarapé Omerê”
 (Isolados  de RO), genocídio de grupos Yanomami (como o recente “Massacre de Haximu”, RR).  Atualmente,
 pequenos grupos humanos que subsistem nos ermos florestais mais preservados,  como os Guajá (MA), 
continuam a mercê da expansão agressiva de empreendimentos mineradores, agropecuários, energéticos, 
da devastação madeireira e dos  projetos colonizadores, entre tantos outros. 
	
  	O assédio ideológico, moral e  espiritual praticado pelas chamadas “missões-de-fé” proselitistas, que se 
 infiltram entre inúmeros povos indígenas, inclusive promovendo contatos  indiscriminados com povos em isolamento 
voluntário (como entre os Suruahá-AM)  também materializam tremendos impactos físicos e culturais, desestruturando
 em  seu âmago populações indígenas lançadas à conflitos internos e com conseqüências  catastróficas ao cerne cultural 
e composição demográfica destes povos.
     
	 A situação de “isolamento” não  delimita unicamente uma restrição geográfica. Expressões mais recentemente 
 utilizadas, tais como “índios autônomos” ou “em isolamento voluntário”, tentam  registrar a opção deliberada de vários
 destes povos em manterem-se  independentes e distantes duma sociedade majoritária que historicamente tem imposto  
a destruição, a exploração e o morticínio como padrão de dominação.