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Nesta edição, algumas das notícias relevantes de julho e agosto de 2010:

 

SLATE MAGAZINE: agosto de 2010

O HOMEM MAIS ISOLADO DO PLANETA

Ele vive sozinho na Amazônia Brasileira, mas até quando?

Índio do Buraco-RO/FUNAIUma das raras imagens do chamado "Índio do Buraco", o último de seu povo deslocando-se pelas matas do rio Tanarú, RO - imagem FUNAI/Divulgação

O homem mais isolado do planeta vai passar a noite dentro de uma cabana de folhas de palmeira, na Amazônia brasileira. Como sempre, insetos danados infestam o ar. Macacos-aranha irão patrulhar as copas das árvores . Porcos selvagens procurarão raízes na mata . E o homem continuará a ser uma calma figura anônima da paisagem, camuflado ao ponto da quase invisibilidade .

Esta descrição se baseia em alguns pressupostos incognoscíveis , obviamente, mas estes são relativamente demonstráveis. O isolamento deste homem tem sido tão bem estabelecido, e é tão inacreditavelmente extremo,  que retratá-lo em seu silêncio permanente em mais um momento de solidão absoluta  é uma garantia prática de precisão jornalística.
Ele é um indígena  brasileiro, e servidores do Governo Brasileiro concluíram que ele é o último sobrevivente de uma tribo não-contatada. Inicialmente, tomou-se conhecimento da sua existência há quase 15 anos e há uma década foram realizadas numerosas expedições para segui-lo, com o intuito de garantir sua segurança e tentar estabelecer contato pacífico com ele.  Em 2007, com a expansão da pecuária e a exploração madeireira encurralando-o rapidamente por todos os lados, o Governo declarou uma área de 31 quilômetros quadrados em torno dele, para além dos limites de invasão e expansão desenvolvimentista.
Foi  concebido para ser uma zona de segurança. Ele ainda está lá. Sozinho.
A História oferece poucos exemplos de indivíduos que possam  rivalizar com sua solidão em termos de duração e grau. O que mais se aproxima é a " Mulher Solitária de San Nicolas”, uma mulher indígena avistada pela primeira vez por um caçador de lontras em 1853, completamente sozinha em uma ilha ao largo da costa da Califórnia. Padres católicos que enviaram um barco para buscá-la concluíram que ela estivera só, por 18 anos, enquanto última sobrevivente de sua tribo. Mas os detalhes de sua sobrevivência nunca foram realmente estudados. Ela morreu poucas semanas após ser "resgatada”.
Certamente outras últimas tribos de homens – e de mulheres,  têm sucumbido não-observadas  ao longo da história , e  o mundo ignora sua passagem. Mas o que torna único este homem no Brasil não é apenas a extensão de sua solidão ou o fato de que o Governo está consciente de sua existência. É o modo pelo qual estão respondendo a isto .
Sociedades avançadas , invariavelmente, submeteram as populações indígenas que encontraram , determinando os destinos destes povos por eles. Mas o Brasil está em  meio a uma experiência. Se o contato pacífico for  estabelecido com o índio solitário,  que seja por escolha dele. Batizaram isto de “Política do não-contato”.  Após anos de tentativas , frequentemente trágicas, de assimilação pela vida moderna dos povos que ainda habitam os poucos lugares preservados ainda restantes no planeta, esta política é um passo numa direção totalmente  inédita. O caso do índio solitário representa sua prova mais desafiadora.

Poucos brasileiros ouviram inicialmente sobre o  índio solitário em 1996, quando madeireiros no oeste do estado de Rondônia começaram a espalhar um boato : um homem selvagem na floresta , que parecia estar sozinho . Agentes do Governo especializados em tribos isoladas logo encontraram uma de suas cabanas , um pequeno abrigo de palha , com um misterioso buraco escavado ao centro no chão. Como continuaram a procurar quem construíra aquela cabana, constataram que o homem estava em fuga , passando de abrigo para abrigo , abandonando cada cabana logo que  madeireiros ou os agentes se aproximavam. Nenhuma das outras tribos da região era conhecida por aquela prática cultural, de cavar buracos no interior das casas: buracos de mais de cinco metros de profundidade , retangulares, sem nenhum propósito aparente. Ele não parecia ser um náufrago perdido de uma tribo já documentada.
Eventualmente , os agentes encontraram o homem . Ele estava sem roupa, parecia ter por volta de 30 anos (agora estaria em seus tardios 40 anos, além ou aquém em alguns anos ), e sempre armado com arco e flecha. Estes encontros resumiram-se a um padrão de tentativa de contato bem conhecido: impasses tensos, que terminam em frustração ou  tragédia. Em uma ocasião, o índio enviou uma mensagem muito clara para um dos agentes, que  tentou fazer contato de longe : uma flechada no peito.
O contato pacífico comprovou-se ser ilusório, mas esses encontros ajudaram aos agentes a costurar um perfil de um homem com um passado calamitoso. Em uma clareira na selva , encontraram os destroços de várias cabanas demolidas , cada uma com exatamente o mesmo tipo de buraco -14 no total-  como aquele que o índio solitário habitualmente escava o interior de sua habitação. Concluiu-se que havia sido o local de sua aldeia, e que teriam sido destruídas por colonos ávidos por terras nos primórdios de 1996 .
Esse tipo de confrontos não são desconhecidos : a Constituição do Brasil de 1988 concedeu aos índios o direito às terras que tradicionalmente ocupam , o que criou um poderoso incentivo aos colonos para perseguirem tribos isoladas em quaisquer  territórios que pudessem ser percebidos como passíveis de desenvolvimento. Apenas alguns meses antes dos agentes começaram a seguir o índio solitário, ocorrera o primeiro contato pacífico com duas outras tribos que vivem na mesma região . Uma destas tribos, os Akuntsú, foi reduzida a apenas seis membros. O restante da tribo , explicou seu líder , tinha sido morto durante um assalto por homens armados com espingardas e motosserras.
Se você vai a Rondônia hoje , nenhum dos latifundiários locais alega  qualquer conhecimento destes massacres grotescos. Mas a maioria não teme expressar em alto e bom som  seu desdém sobre a criação de reservas para tais pequenas tribos. Eles insistem em afirmar como absurdo resguardar 31 milhas quadradas de terras em benefício de apenas um homem, quando nelas uma fazenda produtiva poderia potencialmente fornecer  alimento para milhares de pessoas.
Este argumento esmorece sob uma análise minuciosa, em parte porque milhares de quilômetros quadrados de florestas já desmatadas da Amazônia permanecem improdutivos, estéreis, subdesenvolvidos. O único modelo econômico que incrementaria a produção não depende em absoluto do incremento de um desmatamento estritamente local.  A questão de quem é beneficiado com o desbravamento  da terra  versus a preservação da mesma se resume a duas pessoas: o explorador  individual e o índio solitário. Os agentes do governo sabem disto, no entanto eles vêem a proteção ao indígena solitário como uma questão de direitos humanos, não de economia .
Ele alimenta-se principalmente de caça, que obtém com seu arco e flecha ou  aprisionando-as  em armadilhas profundas com estrepes. Crescem alguns cultivares em torno de seus acampamentos, incluindo o milho e a mandioca , e muitas vezes recolhe o mel das colmeias de abelhas sem ferrão que os constroem  em ocos de troncos de árvore. Algumas das marcas que ele faz sobre as árvores têm sugerido a indianistas especialistas que ele mantém uma vida espiritual, que especula-se possa lhe dar forças para sobreviver ao penoso fardo psicológico de ser, em certa medida , o último homem em um mundo de um.

Mas por quanto tempo  perdurará seu isolamento? Eu recebo atualizações no Facebook de pessoas a meio mundo de distância me dizendo que estão fazendo suas  refeições. Empresas e governos estão  investindo cada vez mais  e mais longe do que nunca em busca de recursos financiáveis. Como é possível que ninguém tenha ainda engolfado este homem ? Em 2010 , pode alguém realisticamente viver fora das grades?
Alguns brasileiros acreditam que a rápida disseminação da tecnologia em si pode proteger  sua solidão, não ameaçá-la . Os agentes governamentais que atuam no caso do índio solitário desde 1996 acreditam que o melhor da história deste homem é o desdobrar de seu isolamento , que agora é mais viável do que nunca, que ele estará mais seguro  enquanto estiver camuflado dos ataques anônimos por grileiros locais que dizimaram tribos inteiras no passado. Tecnologias como o Google Earth e outros programas de mapeamento podem ajudar no monitoramento das fronteiras de seu território. Em vez de promover expedições intrusivas em territórios indígenas a fim de verificar a segurança dos índios, as autoridades brasileiras anunciaram que irão experimentar o uso de sensores de calor que podem ser acoplados a aviões que voem alto o suficiente para não causar qualquer perturbação no solo.

Ouvi pela primeira vez do índio solitário há pouco mais de cinco anos, quando eu era correspondente na América do Sul para o Washington Post e estava entrevistando um homem que chefiara o departamento federal responsável por proteger tribos isoladas na Amazônia. Ele mencionou o homem como um aparte , dando-me um resumo da última tentativa de forçar o contato com ele , a tal expedição que terminara com um agente governamental com uma flecha cravada no peito. Marquei uma estrela enorme e três pontos de exclamação na margem do meu bloco de notas, quando ele mudou para outro assunto. Estas anotações - Não se esqueça de voltar a isto! –foram inúteis, porque eu não conseguia parar de pensar no homem solitário e as temerárias expedições para contatá-lo.

Agora, o que eu encontro é um pouco diferente: o homem solitário e o apoio sem precedentes com o qual os agentes estão demonstrando a escolha de não repetir a história .

Artigo do correspondente internacional Monte Reel para a Slate Magazine, publicado no website americano do MSN ; original em inglês em: http://www.slate.com/id/2264478/pagenum/all/#p2

 

SURVIVAL INTERNATIONAL: 27/08/10

Presidente do Brasil assina “sentença de morte” para rio amazônico (Xingú)

Protesto Kayapó-Belo Monte SURVIVALÍndios Kayapó em protesto contra a Hidrelétrica de Belo Monte
© T Turner

O Presidente do Brasil,  Lula da Silva, assinou o contrato de concessão para a construção da  polêmica e controversa Hidrelétrica de Belo Monte, que será edificada no rio Xingú, Amazônia. Lula declarou: “Eu penso que esta é uma vitória para o setor energético do Brasil”.
Belo Monte , se construída, será a terceira maior barragem do mundo. Ela devastará o meio ambiente local ameaçando a vida de milhares de indígenas que vivem na região, cujas terras e fontes alimentares serão seriamente danificados.
Especialistas têm alertado que o projeto tem sérias falhas técnicas. Foi descrito por Walter Coronado Antunes, ex- secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, como "o pior projeto de engenharia da história das hidrelétricas no Brasil, e talvez de quaisquer projetos de engenharia do mundo " .
Índios, juntamente com organizações para os direitos humanos e ambientais, têm viajado para a capital do Brasil , Brasília, para protestar contra a assinatura do contrato por Lula.Eles afirmaram: “O governo assinou uma sentença de morte para o rio Xingu e condenou milhares de moradores à expulsão”.
Organizações brasileiras e internacionais publicaram uma declaração contra a barragem de Belo Monte , descrevendo a assinatura do contrato como uma " sentença de morte para o rio Xingu , e uma " afronta escandalosa às convenções internacionais sobre direitos humanos, às leis brasileiras e à Constituição brasileira.
Marcos Apurinã ,da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) , afirmou: " Nosso governo tem se apresentado como um exemplo para o mundo. Mas aqui no Brasil, pelo menos para os povos indígenas, não é exemplar em tudo! ".
Os índios avisaram que se a barragem for construída , a "guerra" pode  começar e o Xingu poderia se tornar um "rio de sangue ".
Eles organizaram diversos  protestos contra o projeto. Centenas de índios estão atualmente participando de um protesto, juntamente com especialistas em direitos humanos, organizações ambientais e o Ministério Público Federal contra a barragem de Belo Monte, bem como contra as represas nos rios Madeira, Teles Pires e Tapajós .
Survival International publicou recentemente um relatório destacando os impactos devastadores que as barragens estão trazendo para os povos tribais em todo o mundo .

Notícia (em inglês) em www.survivalinternational.org

 

Folha de São Paulo: 22/08/10

Amazônia perde 29 áreas protegidas entre 2008 e 2009

Por pressão de madeireiros, fazendeiros, mineradores ou do próprio governo, 29 áreas protegidas na Amazônia foram reduzidas ou extintas entre 2008 e 2009. O total de florestas perdidas no processo foi de 49 mil km2, quase um Rio Grande do Norte. As reduções ocorreram sem consultas públicas ou estudos técnicos, como manda a lei.
Os dados são de um estudo inédito do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a ser publicado amanhã na internet (www.imazon.org.br). Os pesquisadores Elis Araújo e Paulo Barreto levantaram 37 iniciativas entre novembro de 2008 a novembro de 2009 para reduzir 48 unidades de conservação ou terras indígenas na Amazônia.
Até julho deste ano, 23 propostas haviam sido concluídas --93% delas resultaram em perda de área na unidade de conservação.
O Estado de Rondônia, o mais desmatado da Amazônia, é o campeão: reduziu duas unidades de conservação estaduais e extinguiu dez, além de ter negociado com o governo a redução da Floresta Nacional Bom Futuro, unidade federal.
"Como eles perderam um terço da cobertura florestal, o que sobrou são áreas protegidas", diz Araújo. "A indústria madeireira lá ainda é forte. As unidades de conservação sofrem muita pressão."

O instrumento usado pelo governo do Estado para acabar com as áreas protegidas foi próprio zoneamento ecológico-econômico do Estado, lei que disciplina a ocupação das terras. As unidades de conservação nas zonas de intensificação da produção foram consideradas extintas. A Folha procurou a secretaria do Meio Ambiente de Rondônia por toda a sexta-feira, mas não foi atendida.
Outro caso foi o do Parque Estadual do Xingu, em Mato Grosso. Ele foi reduzido com o apoio da população de Vitória do Xingu para dar lugar a um empreendimento agropecuário, que não veio.
"E a cidade ainda perdeu o repasse do Arpa [programa federal que dá dinheiro a regiões com unidades de conservação]", diz Araújo.

Claudio Ângelo; Folha de S.Paulo em www.folha.uol.com.br

Confira o estudo "Ameaças Formais Contra Áreas Protegidas na Amazônia", por Elis Araújo e Paulo Barreto, publicado pelo Amazonia.Org.BR

 

Globo Amazônia/Globo Rural: 03/08/10

No Maranhão, índios nômades saem da floresta para provar que existem

Eles estão entre os últimos indígenas do mundo que não  se fixaram. Acampados diante de prefeitura, eles pedem demarcação de reserva.

Awá-Guajá/F.Watson SURVIVALCaçador Awá-Guajá, um dos últimos povos nômades da Amazônia Ocidental- foto F.Watson-SURVIVAL

Índios da etnia awá-guajá estão acampados em frente à prefeitura do município de Zé Doca, no Maranhão. Eles pedem agilidade na demarcação das terras da reserva.Veja o site do Globo Rural

Os awá-guajá são caçadores-coletores, dependem exclusivamente da floresta para sobreviver. Eles estão entre os últimos índios nômades do planeta, segundo o Cimi, Conselho Indigenista Missionário.

Os awá vivem isolados em pequenos grupos no que restou da floresta amazônica do Maranhão. Cerca de cem índios, organizados pelo Cimi e pela Igreja Católica, saíram da floresta, a maioria pela primeira vez, para mostrar que existem.

Os índios montaram acampamento no centro do município de Zé Doca, no oeste do Maranhão. A ocupação seria uma reação contra o prefeito do município, que, numa estratégia para barrar a demarcação das terras indígenas, teria negado a existência das tribos nômades.

“A gente quer se amostrar que o índio existe. Tem várias pessoas que não conhecem que não existe índio existe, mas existe”, disse Taka Iu, índio awá-guajá.

Em 1985, uma área com 232 mil hectares foi declarada como território awa. Em 2002, quando a terra foi demarcada, apenas 117 mil hectares foram destinados para reserva indígena.

A Justiça Federal em 2005 determinou a saída de todos os não-índios da reserva. Mas a prefeitura de Zé Doca entrou com mandado de segurança e o Tribunal Regional Federal em Brasília decidiu manter os não-índios até o julgamento final do conflito.

“Que isso seja feito de um jeito que a minha população também seja lotada no seu lugar. Que 18 mil hectares de cento e tantos mil hectares eu acho que não é pedir demais”, defende Raimundo Sampaio, prefeito de Zé Doca.

A ação dos madeireiros também seria uma ameaça á sobrevivência de pelo menos 60 índios awa-guajá que ainda não foram contatados.

“Se eles permanecem a se deslocar pela floresta, riscos de vida há com relação a ataques contra essa população”, alerta Rosana Diniz, coordenadora do CIMI.

Enquanto aguardam uma solução para o conflito os índios fazem seu ritual pedindo proteção. A ida para o céu é o ritual mais importante para os awa-guajá. Eles evocam os espíritos dos antepassados para que protejam a vida na terra.

De acordo com o CIMI, dez mil famílias estariam ocupando ilegalmente a área da reserva.

Notícia do Globo Rural em www.globoamazonia.com

Leia também o artigo do CIMI a respeito, intitulado "Povo Awá-Guajá: acapamento Nós Existimos" em www.cimi.org.br

 

Carta Final da Mobilização em Defesa do Xingu: Contra Belo Monte - 13/08/2010

Nós, povos indígenas Juruna, Xipaya, Arara da Volta Grande, Kuruaia e Xicrin da região de Altamira, Guajajara, Gavião, Krikati, Awa Guajá, Kayapó do MT e PA, Tembé, Aikeora, Suruí, Xavante, Karintiana, Puruborá, Kassupá, Wajapi, Karajá, Apurinã, Makuxi, Nawa AC, Mura do AM, Tupaiu, Borari, Tapuia, Arapiuns, Pataxó, Tupiniquim, Javaé, Kaingang, Xucuru, Marubu, Maiuruna, Mundukuru do AM e do PA e dos demais estados da Amazônia e do Brasil, agricultores, ribeirinhos e moradores das cidades de Itaituba, região do Tapajós, Trairão, Medicilândia, Uruará, Placas, Rurópolis, Gurupá, Altamira, dos travessões do Cobra-Choca (km45 sul), km 27 sul, Paratizão (km23 sul), Assurini e das comunidades do Arroz Cru, Santa Luzia e São Pedro, representantes de organizações indígenas e da COIAB, da APIB, APOINME, ARPIMSUL, do MAB, da Via Campesina, do MXVPS, de pastorais e ONGs, reunidos no Acampamento terra Livre Amazônico, em Altamira/PA, nos dias 9 a 12 de agosto de 2010, para lutar pela vida, pela cultura e biodiversidade da floresta e discutir os impactos dos grandes projetos na região, especialmente a Usina de Belo Monte, viemos a público para afirmar, denunciar e assumir:

1.      Manifestamo-nos a favor da preservação do Rio Xingu e todos os rios do Brasil, principalmente os que passam por terras indígenas.

2.      Manifestamo-nos com toda a veemência contra a construção da Usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu e outros empreendimentos que agridem a vida de nossas comunidades e destroem o meio ambiente, como por exemplo: Jirau e Santo Antônio no rio Madeira, Santa Izabel no rio Araguaia, rio Culuene, Estreito, Transposição do São Francisco, Ribeirão Tabajara, asfaltamento das BR 317, 163, 156, 319, 429 e 421, gasoduto Urucu-Porto Velho, entre outros.

3.      O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê 426 empreendimentos que incidem em terras indígenas, ameaçando de extinção povos indígenas isolados. Para a Amazônia estão sendo projetadas mais de 300 novas hidrelétricas. Uma verdadeira loucura para quem mora na Amazônia e tem a terra e a água como segurança de vida para as atuais e futuras gerações.

4.      Continua vivo na nossa memória a destruição e a morte, provocada pelos grandes projetos implantados de forma autoritária pelos governos da ditadura militar como a construção da Transamazônica (BR 230), as BRs 174, 364 163, e as UHE de Tucuruí e Balbina. Povos indígenas e comunidades tradicionais foram duramente golpeados. Povos como os Arara, Parakanã, Waimiri Atroari chegaram a beira da extinção.

5.      O modelo de desenvolvimento econômico, em benefício de poucos, continua o mesmo, assim como a forma autoritária de implantação dos grandes projetos. Belo Monte é um exemplo claro. Os estudos de impacto ambiental foram feitos para respaldar a obra e não para medir os reais impactos socioambientais. Os povos indígenas e comunidades tradicionais atingidas não foram devidamente ouvidos como determina a Constituição Federal, a Convenção 169 da OIT e Declaração da ONU sobre os povos indígenas, nem tampouco os cientistas que sistematicamente alertam sobre as graves falhas do projeto.

6.      Fazem parte da estratégia perversa desse modelo de desenvolvimento a desinformação, a mentira, o desrespeito às leis, a criminalização de lideranças indígenas e populares, bem como ações de sedução e promessas feitas às comunidades.

7.      Os povos indígenas, na luta por seus direitos à terra são acusados erroneamente de serem violentos, obstáculos ao desenvolvimento e manipulados por ONGs, para confundir a população sobre o que verdadeiramente acontece na Amazônia.

8.      Refletimos durante os quatro dias do Acampamento Terra Livre Amazônico sobre as estratégias de luta contra Belo Monte e outros grandes empreendimentos.

9.      Queremos alertar a todos, que a Amazônia será irreversivelmente comprometida se continuar a loucura da super-exploração dos seus recursos naturais. Dessa forma, os compromissos assumidos pelo Brasil nos tratados internacionais sobre o clima, não serão cumpridos.

10.  Assumimos coletivamente o compromisso de fortalecer a aliança dos povos indígenas, ribeirinhos e demais comunidades da Amazônia na luta para assegurar integridade de seus espaços territoriais e para construir o futuro da região a partir das suas experiências de vida.

11.  Convocamos a todos para um enfrentamento comum articulado e organizado contra Belo Monte e os demais empreendimentos planejados contra a Amazônia.

12.  Solicitamos o apoio da sociedade do campo e da cidade, pois a vida da Amazônia está em risco.

"Toda vez que nos unimos reforçamos nosso movimento. Não devemos ter medo da polícia, do fazendeiro, de ninguém que está ameaçando a natureza. Natureza é vida, ela nos sustenta até hoje, por isso, temos que defendê-la como pai e mãe que nos dá vida". (Cacique Raoni Kayapó)

Altamira, 12 de agosto de 2010.

Notícia em www.amazonia.org.br

 

Mongabay.com: 22/07/10

Mercado de mogno nos E.U.A ameaça vidas de índios isolados na Amazônia

Homem Murunahua recentemente contatado, no Sudeste do Peru- Foto: © Chris Fagan/Upper Amazon Conservancy. Murunahua (Peru)-Chris Fagan-UAC

Consumidores que compram móveis de mogno nos Estados Unidos podem inadvertidamente apoiar a exploração madeireira ilegal em uma reserva peruana de tribos indígenas não-contatadas , colocando em perigo as vidas destes povos indígenas. Um novo relatório da Upper Amazonas Conservancy (UAC) fornece evidências de que os madeireiros realizam corte ilegal de árvores de mogno na Reserva Murunahua , onde estima-se que vivam cerca de 200 índios isolados .
"Seria uma tragédia para os cidadãos americanos continuarem comprando mogno peruano se isto coloca a sobrevivência dos índios isolados em risco ", declarou Stephen Corry , diretor da Survival International, uma organização de direitos indígenas, em um comunicado de imprensa.
Segundo o relatório , mais de 80 por cento das exportações de mogno do Peru acabam nos E.U.A , tornando muito provável que a madeira ilegal esteja entrando no mercado americano. Em 2008, os E.U. aprovou uma emenda à Lei Lacey , que proíbe a importação , a posse  ou a venda de madeira de origem ilegal , porém o UAC encontrou provas de que os madeireiros ilegais peruanos estão contornando a lei.
"Eles usam licenças florestais  atribuídas à concessões de madeira ou de terras indígenas tituladas, quando realmente a madeira vem de outro lugar ", disse David Hill, também da Survival International , à Mongabay.com. "Em outras palavras , o próprio sistema projetado para legalizar o comércio é explorada pelo comércio ilegal. Uma ironia terrível . "
Enquanto as empresas de petróleo e gás foram recentemente impedidas de atuarem na reserva devido aos temores quanto à segurança dos nativos , o relatório da UAC alega que a exploração madeireira é " generalizada " na área protegida , incluindo estradas de madeireiras e trânsito de veículos que trazem a madeira para um rio próximo para ser transportada.
Madeireiros ilegais ameaçam índios isolados de muitas maneiras , além do desmatamento da floresta da qual dependem : a disseminação da enfermidade pelos madeireiros ilegais .  visto que indígenas sem contato são especialmente vulneráveis à doenças , devido à falta de defesas naturais contra doenças que ainda não conhecem. Quando alguns grupos  indígenas Murunahua  foram ente contatados na década de 1990 , também por madeireiros ilegais, populações foram exterminadas:  metade dos indígenas contatados morreram de doença e sob violência.
"A única forma de impedir que isso aconteça é  que  os consumidores dos E.U. rejeitem qualquer mogno peruano, ou o Governo  proibir as exportações aos E.U. temporariamente. Até que isso aconteça , as pessoas dos E.U. não têm nenhuma idéia de onde a madeira que está comprando é realmente proveniente", afirma Hill.
Até esta data, o Peru tem feito vista grossa ao desmatamento na reserva , mas Hill argumenta que não seria difícil pôr fim ao comércio ilegal."O governo do Peru  precisa encontrar a necessária vontade política e alocar os recursos necessários para impedir que os madeireiros entrem nas  terras de tribos sem contato '. O que isso significa na prática é a construção de postos de controle ao longo dos rios , com todo o apoio financeiro necessário para que técnicos possam fazer seu trabalho de forma eficaz ", diz Hill. "As áreas das quais estamos falando  são muito distantes e não há muitas formas de acesso : em outras palavras , é uma questão de identificar quais os madeireiros usam os rios e impedí-los de entrar . Não é ciência de foguete. "

Notícia do Mongabay.com no Amazonia.Org.Br/english (em inglês-trad Rosa Cartagenes): www.mongabay.com

Leia também comentários do jornalista Altino Machado no Blog da Amazônia/Terra.com.br

Globo Amazônia: 11/07/10

Queimadas na Amazônia aumentam 50% no período de um ano

Segundo especialistas, menor índice de chuvas é um dos responsáveis. Focos de calor devem aumentar ainda mais até outubro.

O número de focos de calor nos estados da Amazônia Legal, que coincidem em boa parte com a quantidade de queimadas detectadas no bioma, aumentou cerca de 50% no primeiro semestre de 2010 em relação ao mesmo período do ano passado.
 A ocorrência de mais incêndios, geralmente mais comuns a partir de junho em quase todo o país, está relacionada a questões climáticas no ecossistema e pode ser influenciada pela economia e pela fiscalização.

Entre janeiro e junho de 2009, um total de 1.604 focos de calor foi registrado na Amazônia Legal, considerando apenas imagens geradas pela passagem noturna do satélite NOAA 15. O número subiu para 2.390 no mesmo período de 2010. Os dados estão disponíveis no Banco de Dados de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
"Usar esse satélite é uma forma de minimizar o registro de focos de calor como se fossem queimadas. Ele identifica superfícies com temperatura acima de 47 graus. O satélite que fotografa durante a tarde pode detectar rochas com temperatura acima disso", explica Lara Steil, chefe substituta do PrevFogo, sistema por meio do qual o Ibama monitora e controla incêndios no país.

O estado com mais focos de calor detectados neste ano, usando apenas o NOAA 15, foi o Mato Grosso, com 1.267 ocorrências. Na sequência vem o Pará (451), Roraima (423), Maranhão (103), Rondônia (85), Amazonas (39), Amapá e Tocantins (ambos com 8) e Acre (6). Mato Grosso também teve mais ocorrências em 2009, com 973 focos, seguido de Roraima (265), Pará (156), Maranhão (115), Amazonas (45), Rondônia (22), Acre (13), Amapá (9) e Tocantins (6). O número total de ocorrências para o mesmo período foi de 2.117 para o ano de 2008 e de 1.144 para 2007, segundo dados do Inpe.

De acordo com Lara, a ocorrência de mais focos de calor em 2010 pode ser justificada, em parte, porque 2009 foi um ano "atípico", segundo ela. "Choveu mais no ano passado e, consequentemente, houve menos incêndio".

Para Alberto Setzer, pesquisador de queimadas do Inpe, o aumento na quantia de focos de calor também está relacionado a questões climáticas. "Este ano temos menos dias com chuvas e o período de estiagem está maior", diz ele. "Mas há outros elementos que podem influenciar uma queimada." No caso de Mato Grosso, estado com mais focos de queimada, uma proibição de usar o fogo para fins de agricultura começa em 15 de julho e vai até setembro para tentar minimizar os incêndios. "Posso supor que alguns agropecuaristas vão se antecipar a esta proibição e o número de queimadas vai crescer até o dia 15", diz Setzer.

Segundo o pesquisador, a economia do país e o nível de fiscalização por órgãos ambientais também podem influenciar a incidência de queimadas. "Em 2008 e 2009 ainda havia uma crise econômica no mundo e tivemos menos desmatamento no Brasil", diz ele. O pesquisador explica que o número de queimadas no primeiro semestre do ano é só uma amostra do que deve ocorrer nos próximos seis meses. "Pode ser que tenhamos um ano com menos queimadas do que 2009. De 80 a 90% das queimadas devem ocorrer mais para frente", diz ele.

O período com mais queimadas vai geralmente até o fim de outubro, segundo Lara, e até lá os focos de calor devem aumentar ainda mais. "Isso se inverte um pouco em Roraima, que está no hemisfério Norte e tem o período de seca começando geralmente em novembro", diz ela.

Lucas Frazão; notícia em www.globoamazonia.com

 

ÍNDIOS ISOLADOS DO VALE DO JAVARI:

A equipe da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari , instância local da CGIIRC- Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato, da FUNAI, lançou uma página eletrônica muito bem cuidada e informativa sobre o trabalho na região - www.valedojavari.com . Vale a pena acessar a página do Vale, que traz descrições, notícias, dados históricos e antropológicos e o blog do Javari, que permite a inserção e participação dos leitores nos temas. Segue um dos textos de base a respeito da região, de autoria do indigensta Fabrício Amorim:

Banner Javari-Cabral

Presume-se que a população indígena isolada do Vale do Javari é considerável,dada a descoberta de grande número  de suas habitações. Apesar de alguns documentos antigos da FUNAI e CEDI anunciarem de cinco a nove  grupos étnicos distintos, o número exato ainda permanece desconhecido. A Funai reconhece a existência de 14 refêrencias de índios isolados.  Um recente levantamento de informações pela Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, diagnosticou a possível existência de 18 agrupamentos de índios isolados habitando o interior da Terra Indígena e fora dos limites dessa,em  áreas limítrofes e periféricas. Dentre esses 18, cinco são Korubo – três deles confirmados - os outros 13 agrupamentos não são necessariamente grupos étnicos distintos. Existe a possibilidade de alguns agrupamentos que se localizam em regiões próximas se tratarem na verdade de um mesmo grupo étnico, ou subgrupos culturalmente comuns.

Distribuição étnica e lingüística
Quanto à filiação lingüística, acredita-se que os isolados pertencem a três famílias distintas: Pano, Katukina e Arawá – a última ainda com poucos indícios para sustentá-la, no entanto, na  dúvida, é preferível considerá-la – a distribuição é nitidamente observada, estando os grupos Pano em grande maioria no limite oeste da Terra Indígena, em afluentes diretos do rio Javari, como os rios Curuçá, Ituí e Itaquaí. Os grupos Katukina provavelmente mais a leste, entre os rios Jandiatuba e Jutaí, além de um provável grupo de língua Arawá no Alto rio Jandiatuba. A distribuição étnica definida é explicada pela etno-história da região. A atual disposição espacial dos muitos povos indígenas que hoje ocupam o Vale do Javari é resultado tanto das interrelações historicamente mantidas entre as diversas sociedades indígenas da região, quanto reflexo da expansão das frentes extrativistas que forçaram alguns deles a procurarem refúgio dentro dessa área (CEDI, 1986).

Configuração Territorial
Os Grupos de língua Katukina e Arawá habitavam, de uma forma geral, ao longo do rio Juruá, em épocas anteriores à chegada dos não-indígenas. Após esse advento e a conseqüente hecatombe que se abateu sobre estes povos, estes ou foram submetidos a relações comerciais humilhantes e injustas; mortos, quando grupos inteiros padeceram à violência física dos invasores ou pelas doenças trazidas por eles. Além destes, houve alguns grupos Katukina e Arawá que migraram para regiões inacessíveis ainda não penetradas pelas frentes de expansão de desenvolvimento nacionais, regiões essas compreendidas pelos altos cursos e cabeceiras dos rios Jandiatuba, Jutaí e Itaquaí, e seus afluentes. Quanto aos grupos Pano, sabe-se que o Alto Juruá era área de ocupação de diversos grupos Pano (Nimuendaju, 1944). Os Matsés, segundo diversos dados históricos, migraram do rio Galvéz, hoje Peru, para o rio Pardo (CEDI, 1981). No caso de outros grupos Pano - Korubo, Matis, Kulina Pano - não existem informações históricas que os situem em tempos mais remotos, possivelmente sempre habitaram a região formada pelas hidrografias de afluentes do rio Javari. A origem dos grupos Pano é o vale do rio Guaporé (Erikson, 1991).Presume-se que a localização atual de isolados é justificada, em parte, pelas dispersões ocasionadas por ocupação não-índia. Outros (considerando o histórico mais recente de até 100 anos) ocupavam já as regiões onde se encontram hoje, como, provavelmente, o caso dos Korubo, que ocupam uma extensa e definida área. Há presença de índios isolados em praticamente todas as regiões da Terra Indígena, ocupando inclusive áreas fora, porém próximas ao limite da área.

Passado turbulento, futuro promissor e novos desafios
Entre as décadas de 1970, 1980 e 1990, a região hoje delimitada pela TI Vale do Javari estava tomada por inúmeras turmas de madeireiros, garimpeiros e pescadores/caçadores. Em muitos casos esses agentes entravam em confronto com grupos indígenas isolados, produzindo massacres até hoje comentados. Após a demarcação da TI a região tornou-se mais tranqüila, criou-se condições favoráveis para a reprodução física e cultural dos grupos indígenas isolados.
Atualmente têm se observado o crescimento demográfico dos grupos isolados, bem como dos contatados, esse aliado a outros fatos têm ocasionado aproximações e contatos fortuitos entre eles, surgindo assim um novo desafio à proteção dos isolados. Assim sendo, a caótica situação de saúde entre os habitantes contatados é um sério agravante.
Ao mesmo tempo, desmatamentos oriundos do Sul da área surgem como a mais imediata ameaça aos grupos indígenas, sobretudo aos isolados por serem mais vulneráveis. O asfaltamento da BR que liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul no Acre, e a construção da estrada que liga esta última à Pucallpa no Peru – uma cidade madeireira – são situações muito preocupantes. Há ainda outras situações, tais como a intensificação da atividade do narcotráfico na região, a atividade missionária e a insistente invasão de pescadores, entre outros.

Confira todos os itens em http://www.valedojavari.com/ e

http://blogvaledojavari.blogspot.com/

Confira artigo da indigenista Ananda Conde: "Expedições e vestígios
Conheça algumas das principais atividades das equipes de proteção de Índios Isolados" em http://www.valedojavari.com/p/noticias_17.html


SURVIVAL INTERNATIONAL

ÍNDIOS ISOLADOS DO BRASIL: “OS ÚLTIMOS” (04)

Alguns povos indígenas isolados viram-se dramaticamente reduzidos aos seus últimos integrantes. No Brasil, são estes alguns dos mais ameaçados:

O  último de povo (RO):

Maloca do Índio do Buraco/J.PessoaHabitação e pequena roça do “Homem do Buraco”, onde cultiva mandioca e outros vegetais.© J.Pessoa

Acredita-se que este homem solitário é o último sobrevivente de sua tribo, provavelmente massacrada por fazendeiros pecuaristas que ocuparam a região do rio Tanarú, no Estado de Rondônia.
Ele vive sozinho e está sempre fugindo.Não sabemos como se chama, a que povo indígena pertence ou que idioma fala. Também é conhecido como “ Índio do Buraco”, pelos grandes buracos que cava para capturar animais ou esconder-se dentro deles. O “Homem do Buraco” rechaça totalmente qualquer tipo de contato.   
 A FUNAI interditou um pedaço de floresta para sua proteção, mas este território está totalmente rodeado por criadores de gado. No final de 2009, foi perseguido sem trégua por pistoleiros em seu território. No passado, muitos fazendeiros utilizavam jagunços pagos para matar índios não contatados em Rondônia.

Os “Piripkura”(MT):

Não sabemos como se autodenomina este povo, porém seus vizinhos, os Gavião-Ikolen os chamam de “Piripkura” , ou ‘a gente borboleta”, descrevendo a maneira incessante que se deslocam pela selva. Falam uma língua Tupí-Kawahíb, uma família de línguas que é compartilhada por vários povos indígenas no Brasil

Piripkura-Foto Araquém AlcântaraHomem Piripkura adormecido. Foto Araquém Alcântara ©

Os Piripkura eram cerca de 20 indivíduos quando a FUNAI os contatou pela primeira vez, na década de 80. Depois deste contato, voltaram para a floresta. Desde então, se voltou a fazer contato com apenas três membros deste povo indígena.
Em 1998, dois homens Piripkura, Mande-í e Tukan, saíram da floresta por conta própria. Um deles estava doente e foi hospitalizado. Durante o breve tempo que permaneceu no hospital falou de como no passado seu povo era numeroso e descreveu como haviam sido massacrados pelos brancos, e como ele e seu único companheiro perambularam pela floresta caçando, pescando e coletando.

Não sabemos se há outros sobreviventes Piripkura , no entanto Mande-í e Tukan estão e grave perigo e suas terras são constantemente invadidas por madeireiros ilegais, que bloqueiam seus caminhos na floresta para evitar que os índios possam caçar.
A FUNAI  promoveu uma interdição jurídica que proíbe o desenvolvimento de atividades econômicas e o acesso não-autorizado á terra dos Piripkura. Porém, se o Governo Brasileiro não atuar de modo urgente no mapeamento e ratificação legal de suas terras, os últimos sobreviventes Piripkura conhecidos poderão desaparecer para sempre.

Os Kawahíwa do rio Pardo (MT)

Pouco se sabe deste grupo indígena, mas acredita-se que pertence aos povos Kawahíwa, ou Kawahíb.  A  FUNAI estimava que eram cerca de 50 indivíduos há alguns anos, porém atualmente podem ser menos do que isto.

Acampamento abandonado-Kawahíb/rio Pardo-SURVIVALAcampamento de índios isolados, abandonado apressadamente, rio Pardo, Brasil © Survival

Presume-se que deixaram de ter filhos porque estão constantemente fugindo de madeireiros e outros intrusos. Como estão sempre em fuga, não podem cultivar e se vêem obrigados a depender tão somente da caça e pesca.
Seu território ainda não está devidamente demarcado e, portanto, sua sobrevivência como povo corre grande risco. Sua floresta é constantemente invadida por madeireiros, muitos dos quais operam a partir de Colniza, uma das mais violentas cidades da fronteira colonizadora, em uma das regiões mais desmatadas da Amazônia, no Mato Grosso
Em um lance inesperado um promotor federal iniciou uma investigação sobre o genocídio destes Kawahíwa. Segundo as Nações Unidas, o crime de Genocídio se define como “ infligir deliberadamente a um povo condições de vida com a intenção de destruí-lo, total ou parcialmente”. As evidências sugerem que os madeireiros tem perseguido de modo deliberado aos Kawahíwa e os tem forçado a abandonar seus lugares e viver em fuga permanente.

Os Korubo do Vale do Javarí

Na fronteira entre Brasil e Peru, o Vale  do Javari é o habitat de sete povos indígenas contatados  e de uns sete grupos não-contatados, uma das maiores concentrações de povos indígenas isolados no Brasil.

Korubo-Primeiros contatos/E.SordestronMulher Korubo e seu filho, no Vale do Javari, à época dos primeiros contatos.© Erling Soderstrom

Um destes, os Korubo, são conhecidos na região como os “índios caceteiros”, por causa dos grandes bastões de madeira que utilizam para proteger-se.
Em 1996 a FUNAI contatou um grupo de trinta Korubo , que haviam se separado do grupo principal- que continua sem contato e que reiteradamente evita o contato com os povos circunvizinhos.
As patologias fatais contraídas através de forasteiros estão afetando aos grupos contatados em seu próprio território, e teme-se que sejam transmitidas a outros grupos, não-contatados, com conseqüências trágicas.


Campanha(em espanhol) em www.survival.es (trad.Rosa Cartagenes)


Globo Amazônia: 01/07/10

Belo Monte ameaça nove espécies de peixes raros, aponta estudo

Levantamento mapeou 819 peixes em 540 bacias hidrográficas no país. Somente na bacia do Rio Amazonas,   184 espécies raras.

peixeraro_voltagrande_xingu_globoParancistrus nudiventis, uma das espécies ameaçadas na Volta Grande. (Foto: Reprodução)

A construção da usina de Belo Monte, no Pará, ameaça a existência de nove espécies de peixes raros, segundo levantamento feito por um grupo de seis pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da ONG Conservação Internacional (CI-Brasil).
 O alerta para o perigo às espécies na Volta Grande do Xingu, onde Belo Monte deve ser erguida, é apenas um dos resultados da pesquisa inédita, que identificou 819 espécies de peixes raros de água doce no país.
 Com base na distribuição dessas espécies foram mapeadas 540 bacias hidrográficas consideradas como áreas-chave para a conservação dos ecossistemas aquáticos brasileiros.

As espécies raras ameaçadas na Volta Grande

Aequidens michaeli

Anostomoides passionis

Astyanax dnophos

Ossubtus xinguense

Parancistrus nudiventris

Pituna xinguensis

Plesiolebias altamira

Simpsonichthys reticulatus

Teleocichla centisquama

Essas áreas-chave são lugares insubstituíveis que abrigam espécies de peixes que somente ocorrem lá e em nenhuma outra parte. Somente na Bacia do Rio Amazonas foram identificadas 124 microbacias e 184 espécies de peixes raros.
 “Na região da Volta Grande do Xingu, temos quatro áreas críticas para conservação que possuem menos de 50% de sua vegetação remanescente”, explica Thaís Pacheco Kasecker, coordenadora de serviços ecossistêmicos do programa Amazônia da CI-Brasil.

Thaís aponta que, das nove espécies em perigo no local, duas certamente se extinguiriam com a construção da usina porque vivem em lagoas temporárias que desapareceriam com a obra. 

Para as outras espécies, ainda é necessária uma avaliação de como seriam afetadas pela construção, já que, apesar de existirem em outras partes da Bacia do Xingu, alterações na altura da Volta Grande podem impedir seu ciclo de vida.
 Segundo o estudo, apenas 26% das 540 bacias hidrográficas consideradas áreas-chave são razoavelmente protegidas. As áreas críticas levantadas pelos pesquisadores em todo o país abrigam 344 espécies endêmicas, ou seja, encontradas apenas em determinada região.
 O estudo foi publicado nesta quarta-feira (30) na revista “PlosOne” e se baseia nas descobertas publicadas pelos ictiólogos brasileiros nas últimas duas décadas.

Dennis Barbosa; notícia em www.globoamazonia.com

 

SURVIVAL INTERNATIONAL/ÍNDIA : 01/07/10

Indignação diante de petição propondo separar crianças Jarawa de seus pais

A petição por arte de um deputado indiano para separar as crianças de seus pais Jarawa, povo indígena recentemente contatado das Ilhas Andaman para enviá-los à internatos tem gerado indignação mundial.

Indígenas de todo o mundo reagiram com fúria diante do traslado, que repete a tão criticada política da “Geração Roubada” da Austrália e de políticas similares adotadas na América do Norte.

Crianças Apache -Afga/Historama Crianças Apache  separadas de suas famílias para serem enviadas a uma escola dirigida por brancos. USA, século XIX
© Agfa foto-Historama

Michael Cachagee, diretor executivo da Associação Nacional de Sobreviventes de Internatos do Canadá (NRSSS, por sua sigla em inglês), declarou: “A NRSSS não consegue conceber que alguma nação no mundo atual possa considerar internar seus cidadãos, especialmente crianças em um “internato”, dada a horrenda história associada a este tipo de escolas no Canadá e em outras partes do mundo”.

Crianças Apache-Agfa/HistoramaCrianças Apache após a separação de suas famílias, em uma escola dirigida por brancos, USA, século XIX
© Agfa foto-Historama

Do Brasil, o líder Yanomami Davi Kopenawa expressou: “Este é um plano mau. A selva é o lar dos Jarawa.Estão em sua própria terra.Têm suas próprias tradições e sua própria cultura. Se o Governo pega suas crianças e os mete em uma escola, perderão sua cultura.Se os obrigarem a viver na cidade, será um crime”.
O deputado Bishnu Pada Ray quer “desmamar” as crianças Jarawa separando-os de sua comunidade para “assimilá-los drasticamente à cultura majoritária”.
Este  mês proporá à Autoridade Indiana de  Desenvolvimento das Ilhas que “se tomem medidas rápidas e drásticas para assimilar os Jarawa às características da cultura majoritária”. Descreve os Jarawa como se estivessem em “um estado de desenvolvimento primitivo” e “estancados em um tempo intermediário entre a Idade da Pedra e a Idade do Ferro”.
Atualmente se reconhece que iniciativas similares adotadas nos Estados Unidos, Canadá e Austrália foram desastrosas e que deixaram centenas de milhares de indivíduos indígenas traumatizados.
O deputado Ray também solicita que se suspendam as restrições a projetos de desenvolvimento na reserva dos Jarawa, para que se possa melhorar o estado de uma rodovia ilegal que atravessa a reserva e  construir uma estrada de ferro. O Tribunal Supremo da Índia ordenou em 2002 que a rodovia existente nas Andaman deveria ser fechada para proteger aos Jarawa, porém esta permanece aberta.
Stephen Corry, diretor da Survival, declarou hoje: “Estas escandalosas propostas supõe o  desprezo tanto dos direitos dos povos indígenas quanto dos critérios da ONU para sua proteção. Qualquer tentativa de forçar os Jarawa a abandonar seu modo de vida, simplesmente os destruirá.”
Leia as propostas completas do deputado das Andaman sobre os Jarawa (em inglês).
Nota aos editores: para mais informações sobre o impacto devastador do desenvolvimento forçado sobre os povos indígenas, leia o revolucionário informe da Survival O progresso pode matar.


Notícia (em espanhol) em www.survival.es (trad.Rosa Cartagenes)

 

 

 

 

 

Rondonotícias: 29/08/10

Focos de queimadas aumentam 134% no país, diz Inpe

Iberê Tenório/GloboQueimada na Amazônia - foto Iberê Tenório/Globoamazônia

As queimadas no país aumentaram 134% neste ano, um salto atribuído a ações criminosas e especulativas, clima seco prolongado e avanço da fronteira agrícola, disseram especialistas na sexta-feira. Do início do ano até 27 de agosto, o total de queimadas atingiu 41.636 focos, um aumento de 134% em relação ao mesmo período do ano passado, quando chegou a 17.788, segundo o satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
 "É uma confluência de fatores... um tempo mais seco que outros anos e a gente não tem no Brasil um sistema nacional de prevenção e combate a incêndio", disse o ex-diretor do Serviço Florestal Brasileiro e atual consultor de florestas e clima, Tasso Rezende de Azevedo.
 Foi a primeira vez que o índice registrou crescimento para o período desde 2007, quando as queimadas atingiram o pico de 59.915 focos.
 Os Estados mais afetados estão no Cerrado, como Mato Grosso, Tocantins, sul do Pará, Rondônia, Piauí, Goiás e Minas Gerais, enquanto Acre, Rio Grande do Sul e Amazonas figuram entre os que mais diminuíram seus focos.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, pediu investigação e disse que sete mil bombeiros trabalham no combate às queimadas, além de homens do Exército e brigadistas. Para ela, "o fogo se deve a práticas ilegais costumeiras no Cerrado", que abrange 12 Estados brasileiros. A chefe da pasta solicitou perícias para apurar causas e aplicar punições. Segundo o ministério, 90 milhões de reais estão destinados às operações de combate ao fogo.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) já aplicou mais de 4 milhões de reais em multas nesta semana por queimadas ilegais. Em Rondônia, uma pessoa foi presa em flagrante ao colocar fogo numa pastagem. No Pará, o órgão multou sete proprietários rurais. O clima não tem ajudado neste ano e Azevedo alertou para o agravamento das mudanças climáticas no país.

"Os cenários previstos apontam que esses períodos secos mais prolongados e mais intensos vão se agravar", afirmou. A umidade relativa do ar está abaixo dos 20 por cento em grande parte de Mato Grosso, Tocantins, interior dos Estados do Nordeste, Minas Gerais, Rio de Janeiro, interior de São Paulo e norte de Mato Grosso do Sul, disse o Inmet.

Na capital paulista, a umidade atingiu 12 por cento na tarde da sexta-feira, mínima recorde para o ano e dentro da faixa registrada no deserto do Saara, de 10 a 15 por cento.  Desde 1961, quando começou a medição, o menor número foi atingido em 14 de agosto de 2009, com 10 por cento.
 "A baixa umidade está associada à falta de chuva e ao período longo sem chuva ... é a seca prolongada", disse o meteorologista do Inmet, Luiz Cavalcanti. Não há chuvas significativas em São Paulo há 41 dias, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências. "Sem chuva, a vegetação seca, então fica muito mais favorável às queimadas", afirmou o meteorologista. A situação piora quando as queimadas atingem as regiões que já estão com baixos índices de umidade. Com o aumento das temperaturas pelo fogo, "a pouca quantidade de vapor que tem naquela parcela da atmosfera vai se expandir mais ainda."

O diretor de políticas públicas da organização SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, foi mais a fundo. Ele acredita que o aumento das queimadas pode estar ligado à especulação pelo novo código florestal, aprovado em julho pela Comissão Especial na Câmara dos Deputados.
 Entre as mudanças mais polêmicas do projeto está a proibição de abertura de novas áreas para a agropecuária por cinco anos.

"Essa especulação que está havendo no Brasil hoje está sendo responsável, num ano de evento climático, por uma degradação que a gente nunca viu promovida pelo pior tipo de forma de manejar área que é o fogo", disse Mantovani. "O que está acontecendo agora é um crime contra a sociedade."

Notícia em www.rondonoticias.com.br
 

 

Agência Brasil: 26/08/10

Lula assina contrato de concessão de Belo Monte

Brasília - Ao assinar, hoje (26), o contrato de concessão da Usina de Belo Monte, que será construída no Rio Xingu, no Pará, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou considerar que o ato torna possível algo que antes parecia impossível.

“O que está acontecendo hoje aqui é o fim de um período em que as pessoas tinham medo de governar, de debater. O que está acontecendo aqui, e vai passar para a história, é que estamos tornando possível algo que, durante 30 anos, parecia impossível”, disse.
Durante o discurso, Lula lembrou que há pessoas que ainda são contra a construção da hidrelétrica e afirmou que, ao longo de sua trajetória, ele mesmo fez vários discursos contra Belo Monte, sem sequer conhecer o projeto. “Vocês não sabem quantos discursos fiz contra Belo Monte sem nem saber o que era. E é exatamente no meu governo que acontece Belo Monte”.

Lula disse que, no passado, o Estado não dava importância para as pessoas que eram prejudicadas pela construção de hidrelétricas, mas que atualmente a questão social está sendo levada a sério.

“Aprendemos, já na discussão de Jirau e Santo Antônio [usinas em construção no Rio Madeira, em Rondônia], a conversar com as pessoas”. E acrescentou que hoje se tem discutido simultaneamente a construção da obra e o que será feito para atender essas pessoas. “As pessoas vão perceber que não as estamos enganando, que estamos trabalhando sério na questão social”.

Lula afirmou ainda que o atual projeto da Usina de Belo Monte causará menos impacto ambiental do que o proposto inicialmente, alagando uma área menor no entorno da usina. Segundo o presidente, a usina representa uma vitória da diplomacia do setor energético brasileiro que é resolver conversar mais do que brigar.

Belo Monte será a maior usina hidrelétrica brasileira e a terceira maior do mundo, com início das operações previstas para 2015.

Yara Aquino; edição Antonio Arrais, em www.agenciabrasil.ebc.com.br

 

Amazonia.Org.BR: 26/08/10

"Twitteiros" fazem manifestação inédita contra queimadas no Brasil

Até agora, mais de 25 mil pessoas participam da campanha para denunciar o descaso e as ações ligadas aos focos de incêndio criminoso no País

#chega de queimadas.  É esse o mais novo protesto na rede social Twitter.  Iniciada ontem (25), a manifestação é um marco histórico na área ambiental: nunca antes uma campanha para denunciar os impactos das queimadas foi feito de maneira tão rápida e espontânea.
"Até agora, mais de 25 mil pessoas fazem parte da campanha", disse o cientista político Sergio Abranches em entrevista ocorrida hoje para a rádio CBN.  De acordo com o diretor da OSCIP Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi, das 4h46 às 6h26, #chega de queimadas ficou entre as Trend Topics (expressões mais citadas) do Twitter.  A meta é que a campanha volte a estar nos Tts brasileiros.
Denúncias sobre os focos de incêndio que vem ocorrendo no país, protesto em relação ao descaso e à ausência do Estado são algumas dos posts daqueles que participam da campanha #chega de queimadas.  "O governo brasileiro é inoperante com relação às queimadas.  É fogo para todo lado no Pará e Mato Grosso e Tocantins e nada é feito", disse o ambientalista George Dantas, em um dos seus posts.
Para participar da campanha use a tag #chegadequeimadas em seu twitter.
Brasil em chamas
Durante o período de seca na Amazônia, os produtores rurais ateiam fogo em seus terrenos para renovar o cultivo, seja de agricultura, pasto ou para a pecuária.  Esses incêndios avançam sobre as florestas.  De acordo com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), usar fogo para manejar ou implantar pastagens é ilegal.  Uma queimada só pode ser feita de forma controlada, após ser emitida autorização do órgão ambiental competente.  O valor da multa por queimada irregular é de R$ 1 mil por hectare mais o embargo da área onde houve o crime ambiental.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, esse ano, o estrago provocado pelas queimadas pode ser maior que em 2007, quando houve o maior número de incêndios dos últimos cinco anos.
A situação mais crítica ocorre no Tocantins, onde as queimadas já destruíram 216 mil hectares do Parque Nacional do Araguaia.  O instituto também considera crítica a situação no sul do Pará e em Rondônia.  Além da destruição das florestas, as queimadas trazem prejuízos sociais e econômicos.  Os aeroportos de Rondônia e Acre ficaram fechados por vários dias, por falta de visibilidade ocasionada pela fumaça.  O tráfego nas estradas também foi afetado, principalmente no período noturno.
Em função dos incêndios que se alastram por causa da seca, 100 casas foram destruídas pelo fogo em Marcelândia (MT).  No mesmo Estado dois trabalhadores da Usina Pantanal, na zona rural de Jaciara, morreram em um acidente durante uma queima de cana-de-açúcar.  Uma das vítimas morreu no local.  O outro trabalhador no Hospital e Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá.
Em Rondônia os ribeirinhos estão com dificuldades para navegarem no Rio Madeira, já que além da baixa do rio, ocasionada pelo período de seca, a visibilidade é praticamente zero.  Na região urbana a cidade está tomada por neblina, e a fumaça, em certos momentos chega a tomar conta das residências.  Os atendimentos nos postos de saúde e nas policlínicas aumentaram substancialmente: apenas no Hospital Infantil Cosme e Damião, o atendimento a crianças que apresentam problemas respiratórios subiu 70%.
Só no oeste do Pará, nos municípios de Novo Progresso e Altamira , o Ibama já multou em R$ 726 mil os proprietários rurais por queimada ilegal.  Juntos, eles colocaram fogo sem autorização do órgão ambiental em 724,91 hectares de pastos e florestas em regeneração.  Além da multa, o instituto embargou suas terras.
Acompanhe a manifestação na webpage do Amazonia.Org.Br/Amigos da Terra:

#chegadequeimadas

Thais Iervolino em www.amazonia.org.br

 

Estadão Online: 13/08/10

Índios abandonam diálogo com governo sobre Belo Monte

Cerca de 400 indígenas das margens do Rio Xingu decidiram ontem, em assembleia final do encontro Acampamento Terra Livre Regional, em Altamira, no Pará, que não dialogarão mais com o governo federal quando o assunto for a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que será construída em Altamira.
"O governo só mente. Não há mais diálogo e agora temos de partir para a luta física", disse a liderança indígena Sheyla Juruna, de Altamira. Ela não quis falar que tipo de luta física, mas explicou que "o momento agora é de pensar direitinho como faremos para mostrar ao governo que estamos unidos cada vez mais e a única certeza é que somos contra a Belo Monte".
O cacique Raoni Metuktire Kayapó disse que índios e ribeirinhos e pequenos agricultores precisam se unir cada vez mais: "Nossos ancestrais moravam aqui nesta região e temos de lutar por nossos direitos e dos nossos futuros descendentes". Para ele, todos devem se preparar para que o homem branco respeite os índios. "Estou vivo, forte e muito presente."
O Acampamento Terra Livre foi realizado durante três dias em Altamira e o tema principal foi a Belo Monte. Considerada a principal obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a usina será construída no Rio Xingu (PA) e vai inundar uma área de 516 quilômetros quadrados. A capacidade de geração é de 11.233 megawatts.
Além dos índios das etnias Juruna, Xipaya, Ara da Volta Redonda, Kuruaia e Xicrin da região de Altamira, Guajaja, Gavião, Krikati, Awa Guajá, Kayapó, Tembé, Aikeora, Suruí, Xavante, Karintina, Puruborá, Kassupá, Wajapi, Karajá, Apurinã, Makuxi, Nawa Acre, Mura do Amazonas, Tupaiu, Borari, Tapuia, Arapiuns, Pataxó, Tupiniquim, Javaé, Kaigang, Xucuru, Marubu, Maiuruna e Mudukuru-, ribeirinhos, pequenos agricultores e atingidos por barragens do Xingu, participaram do encontro.
O bispo do Xingu, dom Erwin Krautler, disse que os habitantes do Xingu temem acima de tudo que o governo retome o projeto de construção de uma série de usinas no rio, uma vez que o gasto de R$ 30 bilhões não se justifica para uma usina que produzirá cerca de 40% da capacidade na maior parte do tempo. "É mentira que só Belo Monte será construída porque ela inviável economicamente", afirmou.

Fátima Lessa para O Estado; notícia em www.estadao.com.br

 

SURVIVAL INTERNATIONAL– 09/08/10

O boom da energia “verde” destrói povos indígenas

Vale do Omo-SURVIVALO boom atual da construção de represas devastará muitos povos tribais. © E. Lafforgue/Survival

Motivada pelo Dia Internacional dos Povos  Indígenas, a Survival International publicou um novo informe acerca do impacto devastador que o  espetacular boom pelo qual passa a construção de represas hidrelétricas tem sobre estes.

Através de casos reais da  Àsia, África e América, o  informe da Survival, Presos del desarrollo (“Reféns do Desenvolvimento”), expõe o custo oculto da obtenção de eletricidade”verde” por meio de grandes represas hidrelétricas.Atualmente assistimos a um acelerado incremento global na construção de represas.Apenas o Banco Mundial destinará cerca de onze mil dólares para a construção de 211 projetos hidrelétricos em todo o mundo

O impacto sobre os povos indígenas é profundo.Os índios amazônicos Enawenê Nawê (MT) foram informados que as autoridades brasileiras projetam construir 29 barragens em seus rios.De alto a baixo da Amazônia, os territórios de pelo menos 05 povos indígenas não-contatados serão afetados
O povo indígena Penan de Sarawak (Malásia) enfrenta a expulsão de suas terras, para deixar espaço á uma represa, e outros povos indígenas da Etiopía poderão ser forçados a depender de ajuda alimentar se não paralisarem a construção de uma represa no famoso rio Omo.
 Um homem do povo Kwegu, no Vale do Omo, declarou: “Nossa terra está estropiada. Cercaram a água e agora passamos fome. Abram a represa, e deixem a água fluir!”

Centenas de indígenas brasileiros se reunirão esta semana para mostrar sua oposição a polêmica represa de Belo Monte, que ameaça o território de vários povos indígenas e suas fontes vitais de alimentos.

Investigadores da Survival estão disponíveis para entrevistas.

Descarregar o informe ( em espanhol).



Noticia (em espanhol) em www.survival.es (trad.Rosa Cartagenes)

 

Portal D24AM: 26/0710

Queimadas na Amazônia afetam pulmões de crianças

Partículas penetram profundamente nos pulmões e atingem corrente sanguínea, provocando dificuldades na expiração conforme os níveis de poluição

Estudo interdisciplinar de avaliação dos efeitos nocivos das queimadas para a saúde humana na Amazônia constatou que, em algumas áreas criticas do chamado “arco do desmatamento”, crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos tiveram a sua capacidade pulmonar reduzida devido à intensificação de material particulado na atmosfera, principalmente a fumaça.
De acordo com os pesquisadores, as partículas são capazes de penetrar profundamente nos pulmões e atingir a corrente sanguínea, provocando dificuldades na expiração conforme os níveis de poluição. Os principais resultados mostram que para cada aumento de 10 ug/m3 de material particulado fino há uma redução de até 0,34 litros por minuto de ar expirado.
O projeto, “Avaliação dos efeitos das queimadas para a saúde humana na área do arco do desmatamento: a construção de indicadores para a gestão integrada de saúde e ambiente”, é liderado pela Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, em parceria com instituições de ensino e pesquisa da Amazônia e de outras regiões.
O “arco do desmatamento” é onde ocorre a maior parte das queimadas na Amazônia. Compreende uma área que vai do oeste do Maranhão ao leste e sul do Pará, norte do Tocantins, e em quase todo o Mato Grosso, Rondônia, Acre, até o sul do Amazonas. Os níveis de poluição variam de ano para ano e em cada estado, sobretudo no período de seca, quando os focos são mais freqüentes e intensos.
Em certos meses, a poluição na atmosfera é tanta que há interdição dos aeroportos regionais. Segundo a bióloga da Ensp, Sandra Hacon, coordenadora do projeto, ainda que haja uma variação dos níveis de poluentes de um município para outro, “sem dúvida, nessa área, costumam ser muito mais elevados do que em  grandes regiões metropolitanas do Brasil”.
As pesquisas tiveram início em 2006, com as populações de Alta Floresta e Tangará da Serra, no Mato Grosso. Esses municípios foram definidos como prioritários em razão de o estado ter sido o campeão em números de focos de queimadas na região, nos últimos anos, conforme dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Também foi verificado o aumento de até 7% no número de consultas ambulatoriais e de internações hospitalares por doenças respiratórias de crianças e idosos. Sandra Hacon diz que, antes mesmo de a pesquisa começar, Alta Floresta e Tangará da Serra já registravam as maiores taxas de internação e de mortalidade por doenças do pulmão em crianças menores de 5 anos de idade.
Nos dois municípios, os pesquisadores realizaram o que chamam de “inquérito de asma” para todas as crianças de 6 e 7 anos e adolescentes de13 e 14 anos. Houve prevalência de asma acima da média tanto em Alta Floresta (em 21%) quanto em Tangará da Serra (26%). “Esses percentuais são também mais elevados do que os verificados em Cuiabá, Manaus e Belém em estudos prévios”, afirma Sandra Hacon.
A exposição humana não ocorre necessariamente no local das queimadas, quase sempre afastado da área urbana. As altas temperaturas provocadas pela combustão e a ocorrência de circulações de ar associadas às nuvens favorecem o movimento convectivo ascendente da massa de ar e podem ser responsáveis pela elevação dos poluentes gerados na queima de biomassa até a troposfera.
“Da troposfera, podem ser transportados para regiões distantes das fontes emissoras, chegando às áreas  urbanas”, explica a pesquisadora. Este transporte resulta em uma distribuição espacial de fumaça sobre uma extensa área, que vai influenciar a exposição humana, principalmente os grupos mais vulneráveis (crianças e idosos). 
Complexidade
A Amazônia abriga um dos ecossistemas mais ricos e complexo do planeta. Estudar efeitos da poluição atmosférica na região implica lidar com essa complexidade nas áreas ambiental, social e cultural. “A sazonalidade da região dificulta o monitoramento continuo da qualidade do ar e conseqüentemente influencia na obtenção de dados dos poluentes. O mesmo acontece com os dados meteorológicos contínuos necessários para as análises”, diz Sandra Hacon.
Segundo ela, outra dificuldade está nas características das áreas estudadas. “A agregação dos habitantes de vários municípios nem sempre é adequada, porque os níveis de poluição são distintos de uma localidade para outra. Esta é uma das razões pela qual ainda não foram analisados os efeitos da exposição em relação à mortalidade. Mas o grupo vem trabalhando para lidar com esta dificuldade”.
Redes de pesquisa
A pesquisa coordenada por Sandra Hacon integra a componente “Saúde” na Rede Milênio, um mega projeto associado ao programa de Grande Escala da Biosfera-Atomosfera na Amazônia (LBA).  A partir de 2008, alem do Mato Grosso, também foram realizados estudos em Rio Branco, no Acre, com crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos.
Em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), foi feito o monitoramento do impacto de ozônio e de PM 2.5 (material particulado fino, por exemplo, fumaças de queimadas ou ônibus) na saúde dessa população. Os dados ainda estão em análise, mas Sandra Hacon já comemora os resultados da primeira etapa do projeto, no Mato Grosso.
Segundo a bióloga, os dados contribuíram para que a Fiocruz  passasse a integrar a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas (Rede Clima), e liderasse a sub-rede temática Mudanças Climáticas e Saúde, coordenada por ela e por Christovam Barcellos. A rede reúne pesquisas sobre os diversos aspectos das mudanças climáticas e pretende oferecer subsídios a gestores públicos.
Em 2010, com o subprojeto “Avaliação dos efeitos da queima de biomassa na região do arco do desmatamento à saúde humana”, a equipe da Fiocruz passou a integrar o INCT Mudanças Climáticas, aprovado recentemente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e coordenado pelo Inpe. O objetivo é traçar um perfil epidemiológico das doenças respiratórias e cardiovasculares na cidade.
Instituições parceiras
Para a execução das pesquisas, a Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conta com a parceria das universidades federais de Rondônia (Unir) e do Acre (Ufac), e as estaduais de São Paulo (USP) e de Mato Grosso (Unemat). A Fundação Ecológica Cristalino (FEC), de Alta Floresta, o Instituto de Tecnologia de Pernambuco – ITEC, e o CPTEC/ Inpe também se associaram ao projeto.
Dentre as agencias financiadores, estão, além do MCT, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e as fundações de amparo a pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig), Rio de Janeiro (Faperj) e São Paulo (Fapesp).

Ana Paula Freire; notícia em www.d24am.com

 

VICELAND BRASIL: julho de 2010

PÔ, FUNAI, RECONTRATA O AFONSINHO!

Afonsinho-foto Milanez/VICELANDAfonsinho e a foto de 1976, quando foi flechado nos trabalhos de "pacificação" dos índios Arara, na Transamazônica- Felipe Milanez

Quando Afonsinho era criança, seu pai, seringueiro, foi morto por índios assurini. Quando tinha 16 anos, precisava trabalhar e para isso teve que dar um gato no registro de nascimento, aumentar sua idade para 20, e entrar no serviço público. Foi contratado pelo Serviço de Proteção ao Índio (o SPI, antiga Funai) para um trabalho arriscado: pacificar índios arredios. Justamente, com índios. Correu risco de vida em expedições extremas. “Amansou” os irredutíveis e guerreiros indígenas kayapó, em aventuras que deixariam no chinelo os passeios do Coronel Fawcett. Ao meio dia da quinta-feira de 3 de junho de 1976, enquanto tentava pacificar os bravos índios do povo arara que estavam em conflitos na floresta com colonos na região da Transamazônica, Afonsinho foi atacado. Uma flecha entrou em seu pulmão, a outra atravessou o rim. A imagem feita quando ele chegou à cidade para ser hospitalizado dá medo. Seus colegas João Carvalho e Antonio Ferreira Barbosa também levaram outras espetadas. Todos sobreviveram. Afonsinho conseguiu fazer a paz e se tornou grande amigo e o maior aliado dos araras, com quem convivia até o último mês de janeiro. Afonsinho trabalha para proteger os índios dos brancos que invadem as suas terras. Quer dizer, trabalhava. Depois dessa vida de dedicação à causa indígena, descendente moral do Marechal Rondon, Afonsinho foi demitido. Estava no meio de uma leva de funcionários mandados embora por causa da reestruturação da Funai, em fevereiro.

Hoje, com 72 anos, Alfonso Alves da Silva, é considerado o maior sertanista vivo do Brasil. Não guarda mágoas. “Mágoa? Não, não tem disso não, rapaz.” Nem com os índios que mataram seu pai, nem com aqueles que o flecharam, nem com a Funai. Voltaria a trabalhar com os índios, na Funai, se fosse recontratado? “Eu gostaria muito, sabe, é só isso que sei fazer da vida.”
A terra dos araras (Terra Indígena Cachoeira Seca) vai sofrer impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, o grande projeto do governo no rio Xingu que tem dado o que falar. Quando funcionários da Eletronorte estiveram na aldeia, os índios derrubaram a casa deles. Os funcionários ficaram com medo. Afonsinho não estava. Os araras confiam em Afonsinho. E fora ele, desconfiam dos brancos. A demissão pode deixar os índios araras sujeitos a serem usados e manipulados. Podem ficar à mercê dos vizinhos com que brigam e já mataram. Afonsinho é o intermediário deles, quem sabe explicar o mundo que os cerca. Afonsinho é, também, o guru de todos os outros sertanistas da Funai, que precisam aprender com sua experiência no mato – e a sua dedicação aos índios. É um sujeito pequeno, franzino, “Mas forte que é o diabo”, me disse um sertanista que o admira. Estive com esse herói brasileiro semana passada, em Altamira. Ele mora em uma casa na rua 7 de Setembro – cheguei lá perguntando na rua pelo “Afonsinho da Funai”. Chamei por ele, que veio caminhando em seus passos curtos, mas firmes.

Confira a entrevista completa de Felipe Milanez com o Afonsinho, na página da VICE Brasil:

http://www.viceland.com/blogs/br/2010/07/13/po-funai-recontrata-o-afonsinho/

 

VICELAND BRASIL: julho de 2010

GENOCÍDIO NA SELVA

O Massacre a Nações Indígenas

Por Felipe Milanez; fotos de Araquém de Alcântara

Akuntsú-Araquém AlcântaraO Pequeno grupo sobrevivente dos Akuntsú-foto Araquém Alcântara

Rita, uma índia Piripkura, é sobrevivente do crime de genocídio. Nos conhecemos em uma fazenda que fica entre os estados do Mato Grosso e Amazonas. Ela fala português com dificuldade, e eu não falo nada de sua língua, o tupí-kawahíb. Conversamos por pouco mais de uma hora. Ela alterava sorrisos e olhares de profunda tristeza. Suas expressões não pareciam estar diretamente ligadas ao significado de suas palavras, como se essas tivessem um sentido diferente para ela. Rita me contou sobre o massacre sofrido por sua tribo há cerca de 30 anos. Homens armados invadiram sua aldeia de madrugada. Sua tia foi morta a tiros enquanto dormia na rede. Seu pai foi decapitado, assim como várias crianças, homens e mulheres da tribo. A aldeia foi incendiada. Rita conseguiu fugir, mas depois de um tempo vagando pela floresta acabou sendo forçada a conviver com a nossa sociedade. E teve a pior recepção possível. Foi escrava de peões de uma fazenda madeireira, onde prestava serviços sexuais e domésticos até ser resgatada pela Funai (Fundação Nacional do Índio) em 1984.

Por mais de 20 anos Rita foi considerada a única sobrevivente de sua tribo. Até que em 2007 dois índios Piripkura—Tucan e Monde-í—foram encontrados na floresta graças a expedições organizadas pela Funai chefiadas pelo experiente sertanista Jair Candor.


http://www.viceland.com/br/v2n5/htdocs/plowboys-and-indians-873/7.jpg
Clique para mais fotos de Araquem Alcantara

Há menos de mil quilômetros da fazenda onde encontrei Rita, passei uma tarde na Terra Indígena Omerê, no Sul de Rondônia, com uma família Kanoê. Lá, o pequeno Bakwa de sete anos brincou de atirar flechas com seu tio Purá, que lhe ensinava a arte da caça, e recebeu colo e carinho de sua mãe, Tiramantu. Os três são os únicos sobreviventes de sua tribo, também vítima de um massacre. Os Kanoê dividem as terras de 40 mil hectares com os Akuntsú, que já foram um povo numeroso e habitou um vasto território. Hoje, a tribo tem apenas cinco remanescentes. Um deles é Popak, um homem brincalhão e divertido, que fez cara feia quando apontei uma cicatriz nas suas costas—marca de um tiro que levou quando a tribo foi atacada. Konibu é o líder do grupo, um xamã que gosta de cheirar rapé. Além deles, a mulher de Konibu e suas duas filhas. Talvez uma delas um dia se case com o Bakwa. Em outubro do ano passado, morreu a senhora mais velha, irmã de Konibu. Morreu de tristeza, deitada em sua rede e recusando comida e bebida depois de ter passado um mês em tratamento de infecção respiratória em um hospital da região.

Esses genocídios praticados contra povos indígenas na Amazônia brasileira tiveram início durante a ditadura militar, quando a região foi dividida para colonização e nela foram estabelecidas grandes propriedades rurais. Os massacres aconteceram na sua maioria no fim da década de 70 e duram até hoje, com menor intensidade, mas não menos brutalidade. Eles são praticados por grileiros e fazendeiros e suas vítimas ocupam territórios reivindicados por eles.

O cineasta Vincent Carelli passou 20 anos de sua vida investigando o massacre dos índios Akuntsú, ocorrido em 1984. Ele conseguiu reunir um material que mostra a atuação de fazendeiros, com depoimentos de trabalhadores que executaram os serviços e o cinismo de advogados que os defendiam. As investigações resultaram no belo documentário Corumbiara (2009). Fora isso não deram em muita coisa. Pelo contrário. Dez anos depois, Vincent presenciou um novo massacre, contra outro grupo, próximo aos Akuntsú. Junto de sertanistas, descobriu um homem que vivia sozinho. Suspeita-se que sua tribo tenha sido envenenada por arsênico misturado a açúcar e depois atacada por peões da fazenda madeireira Modelo, em 1995. “Ninguém foi para a cadeia. Nem sequer indiciado”, diz Marcelo dos Santos, o sertanista que fez contato com os índios e organizou uma busca por culpados. Santos sofreu ameaças, e por pouco não foi “comido vivo”, como se diz em Rondônia. Ele prefere não citar nomes, mas em Chupinguaia, ou Corumbiara, cidades da região, são suspeitos de envolvimento Antenor Duarte, Antônio Junqueira Vilela, o ex-senador Almir Lando e os irmãos Dalafini, da fazenda Modelo, por serem os proprietários das fazendas onde os índios viviam.

Quando conheci Rita em Colniza, uma violenta cidade no Norte do Mato Grosso, fui surpreendido em um restaurante por um madeireiro chamado Julio Pinto. Seu pai, Renato Pinto, chegou a ser preso com outras 70 pessoas, acusadas de matar ou mandar matar índios Piripkura que viviam em suas terras—parentes de Rita. Não demorou muito para todos serem liberados, e o processo contra eles até hoje não foi instaurado. Julio, na mesa em que compartilhávamos, afirmou, com um ar um tanto soberbo, que “nunca viu índio naquela região”. Outro comparsa de Julio, ao menos na peça acusatória feita pelo Ministério Público que inclui dezenas de nomes, seria o madeireiro Luiz Durski e sua mulher, proprietários de terras nas quais viviam os índios. Também reverteram rapidamente a ordem de prisão. Sobre este episódio, um confiante Durski me disse, numa entrevista feita em São Paulo, onde estava de passagem a negócios, que tinha certeza de que se tratava de “maluquice” do procurador federal, Mário Lúcio Avelar. Durski também dizia nunca ter visto um índio. Felizmente, a maluquice de procuradores como Avelar, por vezes consegue colocar criminosos atrás das grades. Mas caracterizar um crime de genocídio, apontando culpados e definindo penas a serem cumpridas, é um desafio enorme para as autoridades locais, pois os mandantes desses crimes são madeireiros, garimpeiros, seringalistas, fazendeiros. Gente com dinheiro e influência política.

Existem muitos índios no Brasil passando por situações similares às vividas pelos Piripkura, Kanoê e Akuntsú. Os Avá-Canoeiro, por exemplo, formam uma pequena família localizada a algumas horas de carro de Brasília. Foram atacados por um grupo armado no final dos anos 70 e passaram anos vivendo escondidos em cavernas, comendo morcego e saindo apenas durante a noite, tal era o medo de topar novamente com os brancos invasores.

Em outra ocasião, no início dos anos 90, apareceram dois índios na casa de um rancheiro a 200 km da cidade de Marabá, no Pará. Estavam pelados, com arco e flecha nas mãos e falavam uma língua estranha. O governo brasileiro simplesmente pegou os dois, pensando que fossem da tribo Awá-Guajá, que vive no Maranhão, e os largaram com eles. Sequer foram atrás de outros sobreviventes. Eles ficaram conhecidos como Aure e Aura, e hoje vivem solitários. No Sul do Amazonas, próximo à capital Porto Velho, tem um senhor com duas filhas de um grupo chamado Juma, sobreviventes de massacres e epidemias. São os últimos. Sem quaisquer perspectivas, acabaram juntando-se a outra tribo, que fala a sua língua, os Uru-Eu-Wau-Wau, para casarem e formarem um novo grupo.

São poucos os casos em que os sobreviventes desses massacres se unem para provocar uma reação pública. Na maioria deles seus povos são praticamente dizimados e os poucos sobreviventes não têm forças para gritar por justiça. E, infelizmente, esses genocídios acabam sendo ocultados ou ignorados pela sociedade brasileira.

Artigo de Felipe Milanez na VICE BR: GENOCÍDIO NA SELVA - O Massacre a Nações Indígenas - Vice Magazine

Leia também o artigo original e integral publicado pelo AMAZOÉ em 2009, arquivo PDF: http://www.amazoe.org.br/textosreferencia2.html

 

O Estado de São Paulo: 23/07/10

O DESAFIO DE PRESERVAR O ENCONTRO DAS ÁGUAS

Washington Novaes (*)
O Estado de S.Paulo

Que pensariam norte-americanos e canadenses se, a pretexto de uma crise energética, se resolvesse desviar as águas do rio e, com isso, deixassem de existir as cataratas do Niagara? Que achariam japoneses se, com a descoberta de uma jazida de um metal precioso, se resolvesse implantar um grande projeto de mineração no sopé do Monte Fuji e de suas neves deslumbrantes? O escritor Ernest Hemingway poderia levantar-se indignado do túmulo se, com igual motivo, se decidisse escavar sob o Monte Kilimanjaro, na África, tema de seus escritos. Pois é com indignação que o poeta amazonense Thiago de Mello brada aos ventos contra o projeto de implantação de um terminal portuário ao lado do majestoso Encontro das Águas do Rio Negro com as do Solimões, que dá origem ao Rio Amazonas. Já há um forte movimento em Manaus para impedir que o projeto vá em frente (os defensores da obra argumentam com a "importância econômica" e a geração de empregos). E da oposição participa boa parte da comunidade acadêmica, que tem seus argumentos consolidados pelo professor Ademir Ramos, da Universidade Federal do Amazonas - que lembra também a importância histórica e científica dos sítios paleontológicos identificados na área.

O majestoso Encontro das Águas fascina brasileiros e turistas de outros países que vêm conhecê-lo (isso não é "importância econômica"?). O escritor Fernando Sabino escreveu (O Encontro das Águas, Editora Record, 1977): "Tudo aqui parece encerrar um sentido simbólico; os rios, as florestas, os animais e as plantas, os próprios homens. Aqui a natureza nos dá a sensação vertiginosa de que um dia fomos deuses. Aqui a alma se expande até perder-se no vazio onde o espaço e o tempo se confundem, para reencontrar-se numa vida além da vida, em que tudo se harmoniza - tempo e espaço, civilização e natureza, homens e deuses - numa perfeita integração."

Pois é nas proximidades desse fenômeno e em área de propriedade da União que se quer levar adiante um projeto de R$ 220 milhões, bancado por duas grandes empresas, com forte apoio em áreas políticas locais.

A Secretaria do Patrimônio da União, em Brasília, deu parecer contrário, mas a Gerência Regional no Amazonas opinou a favor do empreendimento e com isso liberou a regularização de "faixa de terreno marginal do rio federal" (Amazonas). O Ministério Público Federal conseguiu na Justiça, em Manaus, medida liminar sustando o licenciamento - mas ela foi revogada em Brasília pela Justiça Federal. Agora o Ministério Público estadual tenta reverter o quadro.

Segundo a proposta apresentada, o "cais de flutuantes será composto de 4 flutuantes de 65 metros de comprimento, 30 metros de largura (boca) e 4 metros de altura (pontal) cada um, perfazendo uma extensão total de 260 metros", à margem frontal ao Encontro das Águas. E tudo isso ocorre num momento em que se afirma universalmente a necessidade de reavaliar enfoques humanos diante de questões como mudanças climáticas, insustentabilidade de padrões de produção e consumo no mundo.

O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) está propondo implantar um novo índice que inclua o valor monetário dos serviços prestados gratuitamente pela natureza (fertilidade natural dos solos, regulação do clima e dos recursos hídricos, importância da biodiversidade para a criação de fármacos, etc.). E é com visões dessa natureza que precisam ser confrontados projetos que põem em risco patrimônios naturais e da biodiversidade. Neste momento mesmo estão no meio de polêmicas vários projetos de portos que implicariam esses riscos - em Santarém (PA), no litoral baiano, em Santa Catarina, no litoral norte de São Paulo.

Da mesma forma, o projeto considerado ameaçador para o Encontro das Águas que formam o Amazonas. Neste caso, precisa ser considerado também o patrimônio representado pelas visões da cultura popular amazônida - sempre tão desprezada. Segundo o escritor Márcio de Souza, ela só aparece como folclore "e depois que passa a polícia".

Mas quem viaja pelos rios da Amazônia vai descobrir de repente - como o autor destas linhas -, no Rio Nhamundá, no Lago da Serra do Espelho da Lua (que nome!), que a lenda das amazonas, para os moradores da região, não é uma lenda . É História, com H maiúsculo: elas habitavam a região, sequestravam homens para ter relações sexuais e a eles entregavam os recém-nascidos, se fossem do sexo masculino; com a aproximação dos colonizadores europeus, "elas foram fugindo para o norte, até depois da última cachoeira, em Roraima". Poderá descobrir que a "democracia do consenso" de que fala o antropólogo Pierre Clastres está em pleno vigor entre os índios maués, à beira dos Rios Andirá e Marau. A eles devemos, entre outras coisas, a descoberta das propriedades energéticas do guaraná, reveladas por seu herói criador. E muito mais.

É preciso abrir ouvidos aos poetas, aos artistas, que conseguem incorporar a importância dessas culturas. Como o próprio Thiago: "Vem ver comigo o rio e suas leis./ Vem aprender a ciência dos rebojos,/ vem escutar os cânticos noturnos/ no mágico silêncio do igapó /coberto por estrelas de esmeralda" (Outros Poemas, Global Editora, 2007). Porque, diz ele, "de caminho de barcos sabe o mar. Os ventos é que sabem dos destinos".

Os ventos populares, com certeza, desaconselham a rota que põe em risco o Encontro das Águas. Então, convém ouvir de novo Fernando Sabino, ao visitar esse lugar: "Aqueles que se encontram na fase de industrialização estão correndo constantemente o risco de empobrecerem e de se desnortearem em vários rumos. Talvez amanhã a riqueza de um povo seja medida pelos seus esforços a favor da conservação da Natureza, do seu ambiente natural, ou seja, pela capacidade de conseguir preservar a sua própria alma." E, como sentencia ele, "não se desafia em vão a natureza".

(*) O artigo do jornalista foi publicado nesta sexta-feira (23/7/10) pelo O Estado de S. Paulo : www.estadao.com.br

 

 

AMAZOÉ: julho de 2010

"Pausa Florestal”

Em virtude da equipe do AMAZOÉ –Apoio Mobilizado ao Povo Zo’é e Outras Etnias- estar se deslocando para terra indígena em área de difícil acesso e comunicação restrita durante o mês de julho,  a atualização de notícias semanais será retomada apenas em agosto. Após esta pausa, onde nosso trabalho em área continua, retornaremos com as últimas notícias.
Aos leitores e amigos, saudações indigenistas e até breve!


AMAZOÉ – Apoio Mobilizado ao Povo Zo’é e Outras Etnias- PA

 

IPS-Inter Press Service International Association :03/07/10

Estudo comprova gravidade de vazamento amazônico

Devido ao vazamento de petróleo da empresa Pluspetrol no Rio Marañon, no dia 19 de junho, as águas contêm graxa e óleo que superam em milhares de vezes o limite máximo permitido, afetando mais de quatro mil nativos e mestiços no coração da Amazônia peruana. “A mancha de petróleo cobriu toda a largura do Rio, com efeitos devastadores na fauna e na flora. Peixes e plantas aquáticas estão destroçados”, diz o informe elaborado pelo engenheiro químico Victor Sotero, do governamental Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.

A IPS teve acesso ao documento e aos resultados das provas de laboratório do vazamento na região de Loreto, quando foi perfurado o casco de uma barcaça que transportava óleo procedente do Lote 8, contratada pela Pluspetrol Norte, filial da argentina Pluspetrol. A empresa informou que o vazamento foi de aproximadamente 400 barris (de 159 litros) de petróleo. A análise das seis amostras, recolhidas entre 20 e 22 de junho na região, revela uma presença de graxas e óleos que oscila entre 10.800 miligramas por litro (mg/l) e 2.613.000 mg/l.

A quantidade é alarmante se considerarmos que o limite máximo admissível destas substâncias na água para o consumo humano é de um miligrama por litro, ou de uma parte por milhão, segundo as leis peruanas. “Com tal grau de contaminação, essas águas não podem ser usadas por estas populações até que sejam feitos novos exames ao longo dos próximos meses e a presença dessas substâncias chegar a zero”, disse Sotero à IPS.

Há 28 comunidades ribeirinhas do Marañon afetadas, mais de quatro mil pessoas, segundo a Defensoria do Povo, entre eles nativos cocamas, localizados perto dos achuar, também atingidos pela contaminação. “Os irmãos reclamam água e alimentos. Eles tomavam água do Rio e se alimentavam dos peixes que foram embora devido ao vazamento”, disse o dirigente Edwin Vasquez, presidente da Organização Indígena do Oriente, para quem a água e os víveres, que a empresa e o governo de Loreto estão distribuindo, são insuficientes.

Acesse a notícia completa em www.amazonia.org.br

 

Globo Amazônia: 02/07/10

Índios afetados por petróleo na Amazônia visitam o Golfo do México

Grupo leva cartilha sobre como conviver com desastre ambiental. Eles acreditam que poluição no Golfo do México será duradoura.

Líderes indígenas do Equador que no passado foram atingidos por vazamentos de petróleo na Amazônia estão no Golfo do México até esta sexta-feira (2) para conhecer a costa de Nova Orleans e Louisiana. Eles vão se encontrar com tribos nos Estados Unidos que sofrem com o derramamento de óleo causado pela explosão da plataforma da British Petroleum (BP) na região, em abril passado.
 No encontro, os visitantes da Amazônia lançaram uma cartilha que contém dicas sobre como reagir aos impactos do vazamento de petróleo sobre uma comunidade. A publicação, cujas sugestões assumem tom de "mandamentos", foi realizada com apoio das organizações não governamentais Amazon Watch e Rainforest Action Network, que também coordenaram a viagem.
 A mensagem dos líderes do Equador diz, por exemplo, que não se deve confiar na empresa poluidora para limpar a "bagunça" adequadamente e ressalta que os impactos do vazamento serão duradouros.
 Os visitantes pertencem a comunidades que tiveram que lidar com o vazamento de óleo após um acidente da Texaco (hoje Chevron) ocorrido na década de 1960. Segundo a Amazon Watch, a contaminação pelo óleo resultou na morte de ao menos 1,4 mil pessoas.

Líder equatoriana no Golfo do Méxixo-Watchers/Divulgação Líder indígena do Equador mostra petróleo durante visita aos EUA. (Foto: Reprodução/ Amazon Watch)

A tribo escolhida para a visita aos Estados Unidos foi a Houma, que reúne cerca de 17 mil moradores na costa de Louisiana. A caça e a pesca da comunidade estão entre suas principais atividades e foram prejudicadas pelo óleo da BP.

Notícia em www.globoamazonia.com

 

O Estado de São Paulo: 02 /07/10

Polícia investiga conflito em usina

Trabalhadores entraram em confronto com representantes da construtora de Santo Antônio, provocando a destruição de 35 ônibus

Os ânimos andam exaltados pelos lados de Porto Velho, em Rondônia, onde estão sendo levantadas as duas hidrelétricas do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau). Ali, os conflitos entre trabalhadores e construtoras já viraram caso de polícia e estão sendo investigados pelo Ministério Público do Trabalho. Entre os questionamentos, estão as condições do ambiente de trabalho.
O último confronto ocorreu em meados de junho, quando os trabalhadores da Usina de Santo Antônio, em construção pela Odebrecht, decidiram cruzar os braços para reivindicar reajuste de 30% dos salários e pagamento de horas extras. A paralisação culminou com a destruição de 35 ônibus e 1 veículo.
Segundo o representante do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil em Rondônia (Sticcero), Danny Bueno, a confusão começou com a discussão entre um encarregado da construtora, que exigia a volta dos trabalhadores, e um operário em greve. O caso teria terminado com a agressão ao grevista e provocado a revolta dos demais. A Odebrecht diz que a informação não procede.
Segundo a construtora, o episódio pode ser traduzido como "atos criminosos provocados por indivíduos, infiltrados e travestidos de trabalhadores, que dissimularam suas verdadeiras intenções através de pseudo reivindicações" e que não refletem a postura de seus trabalhadores. Um inquérito policial foi instaurado para apurar o ocorrido.
Como resultado do quebra-quebra, 70 funcionários foram demitidos por justa causa, afirma a procuradora do Trabalho Michelle Chermont, da Procuradoria Regional do Trabalho da 14ª Região. Ela conta que os funcionários foram impedidos de retornar aos alojamentos e só puderam retirar seus pertences com a presença da polícia. "Quando chegamos lá, os armários haviam sido arrombados e alguns pertences desaparecidos, como dinheiro e roupas."
A procuradora diz que vai entrar com uma ação civil pública contra a decisão da empresa, que não teria provado a participação dos funcionários na confusão. Ela afirma que mais procuradores estão investigando outros casos na construção das usinas.
Assédio. Bueno, do Sticcero, diz que, além do ocorrido no mês passado, o sindicato tem recebido várias denúncias de assédio moral e assédio sexual nas duas usinas. Segundo ele, a entidade recebe todos os dias entre 15 e 30 denúncias, sendo 30% desse montante de funcionários das duas hidrelétricas. Ele conta que entre os casos relatados está o de mulheres que pegam carona da usina até a capital Porto Velho (distância de 10 km) e no meio do caminho são assediadas. É claro que tudo está sendo investigado, destaca ele. Hoje cerca de 20 mil trabalhadores estão nos canteiros de obras das duas usinas.
Em Jirau, o trabalho não foi paralisado, mas as reclamações também preocupam, afirma o sindicato. Em nota, a Camargo Corrêa, responsável pela obra, afirma que "combate e condena práticas de assédio moral e assédio sexual". A Odebrecht diz que a informação do sindicato não procede. As duas usinas fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e custarão cerca de R$ 20 bilhões.
A expectativa é que iniciem operação a partir de 2012 e 2013. Para cumprir o cronograma, o ritmo de trabalho tem sido pesado, afirmam os trabalhadores. Segundo eles, por causa do clima quente da região, desmaios e vertigens são fatos corriqueiros no dia a dia da obra.

PARA LEMBRAR
Leilões foram em 2007 e 2008
As hidrelétricas do Rio Madeira, Santo Antônio e Jirau, foram leiloadas em 2007 e 2008, respectivamente. A primeira foi arrematada por um consórcio liderado pela Odebrecht.
A segunda pelo grupo com participação da Camargo Corrêa. Juntas as usinas terão capacidade de 6450 MW. As unidades abriram as fronteiras da Amazônia para a construção das grandes hidrelétricas.

Renée Pereira e Adriel Diniz: notícia em www.oestadao.com.br

 

SURVIVAL INTERNATIONAL: 01/07/10

Indígenas brasileiros protestam contra represas (Enawenê-Nawê)

EnaweneNawê- Watson/SURVIVALHomens Enawenê preparando o pescado para moquear- foto Fiona Watson-SURVIVAL

Os índios Enawenê Nawê do Brasil (MT) estão protestando contra uma série de represas hidrelétricas, que estão matando os peixes dos quais dependem.
Cerca de 300 indígenas se congregaram na cidade de Sapezal, no estado amazônico de Mato Grosso, armados com arcos e flechas para protestar contra o projeto das represas no rio Juruena. A Survival International está fazendo uma convocação para que os sejam respeitados.
Diferentemente de outros povos indígenas da Amazônia, os Enawenê Nawê não se alimentam de carne, motivo pelo qual o pescado é fundamental em sua dieta.
Está prevista a construção de um total de 77 pequenas represas hidrelétricas no rio Juruena, localizado acima do território deste povo indígena. Cinco delas, de fato, já estão em construção. Os Enawenê Nawê não foram consultados sobre o projeto, e afirmam que desde que começaram os trabalhos de construção, o Juruena e seus afluentes foram contaminados.
Durante os protestos, os Enawenê Nawê  para reiterar sua oposição às represas. Também estão pleiteando que se leva a cabo um estudo completo e independente de impacto ambiental.
Anualmente , os Enawenê Nawê celebram o Yãkwa, um importante ritual para o qual constroem intrincadas  barragens ao largo dos pequenos rios e  capturam  os peixes em grandes cestos.  Os peixes são defumados e transportados à aldeia, onde parte deles é oferecida aos Yakairití , espíritos do submundo, em elaborados cerimoniais coletivos. No ano passado e neste ano, os índios pescaram pouquíssimos peixes, o que representa uma catástrofe para este povo, visto ser a pesca sua principal fonte de proteínas.
Em 2008, os Enawenê Nawê ocuparam o canteiro de obras onde se estava construindo uma das represas , e destruíram grande parte dos equipamentos.

Notícia (em espanhol) em www.survival.es (trad.Rosa Cartagenes)

 

 

 

 


 

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