ONDE ESTÃO ?
No Brasil, quase a totalidade dos “povos invisíveis” estão atualmente na região
amazônica (*mapa 1 CGII), o que dá a medida da destruição de outros importantes biomas
regionais devastados, como áreas florestais e cerrados no Centro-Oeste, onde outrora
habitavam umerosos povos indígenas, hoje extintos. Os Avá-Canoeiro, dos quais sobrevivem apenas dois pequenos núcleos (em Minaçu, GO e na Ilha do Bananal, TO), com a possibilidade
de um terceiro núcleo ainda não-contatado, revelam o drama da saga indígena e a violência
desmedida do confronto com os colonizadores, aos quais os Avá-Canoeiro oferecem
resistência desde pelo menos o século XVIII.
Nas áreas fronteiriças da região amazônica, é dramática a resistência de parcos sobreviventes, como os Akuntsú e os Kanoê (RO), onde as duas etnias somam apenas 09 indivíduos, últimos diante de contínuos massacres promovidos por fazendeiros e latifundiários na região do igarapé Omerê, sudoeste de Rondônia. A exploração desmedida do Estado de Rondônia, cuja ocupação desordenada foi promovida durante décadas pelo próprio governo, representou o genocídio de inúmeros povos indígenas não-contatados em tempos recentes, reveladas por situações extremas como a do “Índio do Buraco” , permanentemente fugitivo e único sobrevivente de seu povo. Devastação que está se repetindo de forma alarmante em outras “fronteiras”, como no Norte do Mato Grosso, onde remanescentes Tupí-Kawahíb autônomos encontram-se acossados pela violência armada de posseiros e latifundiários nas proximidades de um dos municípios de maiores índices proporcionais de desmatamento e de violência do Brasil (Colniza,MT).
As áreas de maior
incidência de registro de “isolados” são: o Vale do Javari (AM), região com o maior índice de morbi-mortalidade indígena do Brasil, e fronteira do Estado do Acre com o Peru, onde madeireiros
ilegais têm pressionado violentamente os maiores núcleos de povos autônomos da Amazônia (veja notícia*).
Quantificar os povos ocultos é tarefa complexa, e plena de imprecisões. O próprio
caráter de resistência, fuga permanente e opção pelo isolamento e pelo ocultar-se revela
a medida da “invisibilidade” destes povos. Notícias diversas, relatos de confrontos e
avistamentos fortuitos de elementos da população regional ou de outras populações
indígenas geralmente são os indícios que constroem a informação de uma população
indígena desconhecida e refratária ao contato com elementos externos. Uma vez reunidos
relatos e notícias, cabe ao órgão indigenista oficial (FUNAI-Fundação Nacional do Índio)
averiguar in loco as informações, procurando indícios e provas materiais (tais como sinais
de acampamentos, objetos utilizados abandonados, caminhos na mata...) para proceder à identificação legal da área como Terra Indígena, providenciando o reconhecimento
jurídico necessário ao resguardo daquele território.
A FUNAI dispõe de uma Coordenação específica – a Coordenação Geral de Índios Isolados-
CGII, que planeja, normatiza e supervisiona as atividades relacionadas aos índios
isolados no âmbito governamental. A execução das diretrizes da CGII fica a cargo das Frentes de Proteção Etnoambiental, que exercem em campo as políticas públicas de localização
e proteção de grupos isolados e de contato recente, sendo atualmente em número de 06: Cuminapanema (PA), Envira (AC), Guaporé (RO), Javari(AM), Madeirinha (MT), Purus(AM),
e um posto de vigilância e proteção em implantação, o PVIP Suruwahá (AM) (*mapa 2 CGII).
Entre 2000 e 2006 a FUNAI listava aproximadamente 40 informações referentes à presença de isolados: a partir de 2007, este número subiu para cerca de 67, embora nem todos as referências disponham de confirmação. Praticamente todos estes povos ou frações de povos estão reduzidos a pequenos grupamentos humanos, gravemente ameaçados pelas frentes de expansão e exploração na Amazônia.